Mais de 1.600 anúncios pagos do exterior expõem falhas da Meta na fiscalização diz relatório

Mais de 1.600 anúncios pagos do exterior expõem falhas da Meta na fiscalização diz relatório

Mais de 1.600 anúncios político-eleitorais pagos em moedas estrangeiras circularam nas plataformas da Meta durante a campanha eleitoral brasileira de 2026, expondo falhas da empresa na fiscalização, segundo um relatório divulgado hoje pelo NetLab.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Dado Ruvic - Reuters

O levantamento do NetLab, laboratório de pesquisa sobre estudos de internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 1.613 anúncios impulsionados por 187 anunciantes, publicados entre julho e setembro, com pagamentos realizados em moedas diferentes do real e com conteúdos relacionados com as eleições brasileiras.

A legislação eleitoral do Brasil possui uma série de regras para a propaganda política na internet e determina que o impulsionamento de propaganda eleitoral seja contratado apenas por candidatos, partidos, federações, coligações e os seus representantes. Além disso, a legislação brasileira exige a identificação do conteúdo como propaganda eleitoral e do responsável pelo pagamento.

Segundo o NetLab, os anúncios foram veiculados inicialmente sem a classificação adequada de conteúdo político e apenas posteriormente categorizados ou retirados pela Meta por violações das suas regras de publicidade.

O NetLab conclui que a combinação de atuação de terceiros com financiamento estrangeiro "levanta indícios de violação das regras eleitorais e de interferência estrangeira", embora o próprio estudo ressalve que os anúncios identificados representam apenas uma parte do problema.

Aponta ainda que a atuação tardia da plataforma permitiu que os anúncios alcançassem milhões de utilizadores e gerassem receitas para a empresa antes da intervenção, evidenciando, segundo o estudo, falhas nos mecanismos de fiscalização.

Os 1.613 anúncios receberam até 2 milhões de reais em investimentos, o equivalente a 353 mil euros no câmbio atual, e foram exibidos até 171,1 milhões de vezes, enquanto mencionaram 70 candidatos.

As análises da NetLab mostram ainda que a quase totalidade dos anúncios, 99,5%, foi paga em dólares norte-americanos, correspondendo a 1.605 peças, segundo os valores divulgados pela própria Meta.

Entre as fontes pagadoras cuja localização estava disponível, 1.056 de 1.076, ou 98,1%, estavam nos Estados Unidos.

O relatório ressalva que não foi possível identificar a fonte pagadora em 537 anúncios, equivalentes a 33,3% da amostra, devido à falta de informação disponibilizada pela plataforma.

"Essa lacuna se torna ainda mais preocupante diante do risco de interferência estrangeira, pois impede verificar se recursos ou atores externos estão financiando publicidade destinada a influenciar o debate público brasileiro", destaca o Netlab no relatório.

No estudo também se destaca que normas brasileiras proíbem candidatos e partidos de receber, direta ou indiretamente, recursos de origem estrangeira, incluindo benefícios economicamente mensuráveis relacionados à publicidade e ao impulsionamento de conteúdos.

Entre os anúncios analisados, 253, ou 15,7%, apresentaram investimentos considerados atípicos, sendo que 40 podem ter ultrapassado 10 mil reais (1.760 euros) e o anúncio mais caro teria recebido até cerca de 51 mil reais (cerca de 9.000 euros).

O NetLab identificou ainda 366 anúncios, equivalentes a 22,7% da amostra, associados a indícios de comportamento inautêntico coordenado, envolvendo pelo menos 39 páginas anunciantes e 39 sítios web.

Outro dado apontado pelo levantamento é que os anúncios pagos em moeda estrangeira começaram a circular antes do início oficial da propaganda eleitoral, em 16 de agosto.

No relatório destaca-se que a identificação dos anúncios depende da classificação feita pela própria Meta e os conteúdos não classificados como políticos ficam fora do âmbito da investigação realizada pelo Netlab.

MYMA // MLL

Lusa/Fim

PUB