Mais de uma dezena de universidades suspendem cursos de língua portuguesa na China
Mais de dez universidades no interior da China suspenderam estudos de língua portuguesa nos últimos três anos, após um pico de cerca de 60 instituições com oferta curricular, indicou hoje à Lusa o Instituto Português do Oriente (IPOR).
"Existem 39 universidades da China com cursos de português, a que somamos mais cinco de Macau, ou seja, 44 no total", referiu a direção do IPOR.
O pico da oferta formativa, continuou o IPOR, "foi no ano letivo 2022/2023, com cerca de 55 a 60 universidades a proporcionarem estudos em português". "Não conseguimos ter dados exatos", reforçou o instituto, que tem como missão preservar e difundir a língua e a cultura portuguesas no Oriente.
A Universidade de Sun Yat-sen, em Guangzhou, capital da província de Guangdong, vizinha de Macau, foi um dos estabelecimentos visados, notou à Lusa o académico da Universidade Politécnica de Macau (UPM) Manuel Duarte João Pires, que lecionou anteriormente naquela instituição do interior da China.
"Tinha um programa de `minor`, que era um programa de 2+2, ou seja, de dupla certificação, e agora não tem", refletiu o académico, também autor do estudo "Vinte anos de ensino de Português na China: exponencial, saturado e o futuro", publicado em agosto.
Na investigação, Pires traça o percurso do ensino da língua portuguesa na China, com o primeiro curso de licenciatura a ser estabelecido no Instituto de Radiodifusão de Pequim (hoje Universidade de Comunicação da China), "focado em formar profissionais para atender à demanda de relações diplomáticas com países de língua portuguesa, especialmente aqueles de África que então lutavam pela independência".
Depois de uma suspensão e "envio de muitos professores e alunos para trabalhos rurais" durante a Revolução Cultural (1966-1976), houve "um renascimento do ensino de línguas estrangeiras".
Nas últimas duas décadas, o ensino da língua portuguesa passou de uma presença residual para uma expansão acelerada.
Até 2005, aponta o autor, apenas três universidades ofereciam licenciaturas em português, mas a "globalização e modernização da China" e a intensificação das relações económicas com países de língua portuguesa, sobretudo Brasil e Angola, transformou o idioma numa ferramenta de empregabilidade.
Dezenas de instituições abriram cursos, num crescimento descrito como exponencial: de acordo com fontes consultadas pelo autor, no ano letivo 2012/2013 eram 19 universidades; em 2017 chegavam a 37 e em 2022 contabilizavam-se 56, com mais de seis mil alunos e mais de 300 professores.
Nos últimos anos, porém, esse crescimento entrou em fase de estagnação, com a suspensão de cursos e universidades a redimensionarem a oferta.
"Depois veio a pandemia, agora a questão da inteligência artificial [IA], também os cursos de STEM [sigla para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática], muito procurados pelas famílias, pelo meio académico", indica Pires.
A articulação com a sociedade civil, particularmente com empresas e instituições que operam no espaço de língua portuguesa, é essencial para a revitalização do português na China, defende. "Vejo isso muito parado, não sei se por questões políticas, mas a sociedade civil entrar na universidade é algo muito difícil", refere à Lusa.
Estágios profissionais integrados nos planos de estudo, projetos desenvolvidos em colaboração com empresas e a participação regular de profissionais ativos nas universidades podem ajudar a reduzir o fosso entre a formação académica e as exigências do mundo profissional, propõe-se na investigação.
O autor sugere ainda a "diversificação dos enfoques de ensino a favor de abordagens especializadas adaptadas às necessidades específicas de diferentes setores profissionais".
No contexto chinês, completa, esta adaptação pode assumir "formas concretas como a criação de programas interdisciplinares onde o português fosse ensinado como ferramenta de trabalho", em áreas como engenharia civil, para projetos em Angola ou Moçambique, saúde pública, para cooperação com o Brasil, ou comércio eletrónico, para plataformas digitais como a Ali Express nos mercados de língua portuguesa.
Uma maior colaboração com as tecnologias digitais e a valorização cultural e humanística do português - não deve ser visto apenas como ferramenta profissional, "mas uma janela para compreender as sociedades e culturas" lusófonas - são outras sugestões.
À Lusa, o investigador salienta que este processo de estagnação, face ao crescimento da IA, não é exclusivo do português, mas alcança o ensino de línguas em geral.
"Desde o início que se associa à língua ao seu poder económico. Ou seja, isso é indissociável", ressalva, sublinhando que "a médio prazo" o lugar do português vai depender sempre das relações económicas e políticas com os países da esfera da lusofonia.
"Já chegou também a um patamar de 56 universidades, não haverá muito mais para crescer a nível de ensino superior", complementa, notando que "o crescimento exponencial não é sempre infinito" e este talvez seja um "processo natural".
Pires admite que a situação é diferente em Macau, onde o portuguêsé uma das línguas oficiais": "É mais difícil as coisas mudarem como muda no interior da China, onde há uma perspetiva mais pragmática, mais económica em relação aos cursos".