Malária. Gana é o primeiro país a aprovar a vacina da Oxford

O Gana tornou-se o primeiro país a aprovar a vacina contra a malária desenvolvida pela Universidade de Oxford. As crianças com menos de três anos de idade serão as primeiras a ser imunizadas.

Cristina Sambado - RTP /
A malária, que é transmitida por mosquitos, mata mais de 600 mil pessoas por ano em África, a maioria crianças Stephen Morrison - EPA

A aprovação chega numa altura em que a vacina, denominada como “R21”, ainda está nas fases finais de ensaio.

Não é claro, para já, quando é que a vacina será lançada, uma vez que outros organismos reguladores, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda estão a avaliar a segurança e eficácia. A malária, que é transmitida por mosquitos, mata mais de 600 mil pessoas por ano em África, a maioria crianças.

Adrian Hill, investigador principal da Universidade de Oxford, revelou que o regulador de medicamentos do país africano aprovou a vacina para o grupo etário com o mais elevado risco de morte por malária, as crianças entre os cinco e os 36 meses de idade.

A Universidade de Oxford, no Reino Unido, tem um acordo com o Serum Institute da Índia para produzir até 200 milhões de doses da R21.


Segundo Adrian Hill, esta é a primeira vez que uma vacina é aprovada por um país africano, antes de receber luz verde de nações mais desenvolvidas.

Alguns especialistas acrescentaram à Reuters que a aprovação, antes da fase final dos ensaios, também era novidade.

“Desde a covid, os reguladores africanos têm vindo a adotar uma posição mais pró-ativa, e querem deixar de ser os últimos a aprovar novos tratamentos”, acrescentou Hill.

As vacinas demoraram décadas a desenvolver-se, dada a estrutura complicada e o ciclo de vida do parasita da Malária. A vacina da Oxford é a segunda, nos últimos anos, a ser aprovada. Nas regiões mais pobres do Continente Africano as vacinas infantis são tipicamente cofinanciadas por organizações como a Gavi - aliança de vacinas-, e a UNICEF após obterem a aprovação da OMS, que ainda está a avaliar a segurança e eficácia da R21.

O Gana usa o financiamento da Gavi para as campanhas de vacinação, apesar de, nos últimos anos, estar a avançar no sentido de adquirir as suas próprias vacinas, após o crescimento económico verificado no país.

Derrick Sim, diretor da Gavi, afirmou que a organização está pronta financiar a R21, se a OMS a apoiar e desde que o valor fosse mantido abaixo dos três dólares.

“Isto mostra como o mundo está próximo de ter uma segunda vacina aprovada contra a malária”, realçou Sim. R21 em ensaios clínicosA vacina desenvolvida pela Universidade de Oxforf foi submetida a ensaios clínicos no Reino Unido, Tailândia e vários países africanos, incluindo um ensaio em curso da fase III no Burkina Faso, Quénia, Mali e Tanzânia, no qual foram inscritas 4.800 crianças. Espera-se que os resultados destes ensaios sejam comunicados "ainda este ano".

Foram demonstrados elevados níveis de eficácia e segurança nestes ensaios da fase II, incluindo entre as crianças que receberam uma dose de reforço da vacina, um ano após um regime primário de três doses. Também cumpriu o objetivo da Organização Mundial de Saúde de apresentar pelo menos 75 por cento de eficácia.

"Isto marca o culminar de 30 anos de investigação da vacina contra a malária na Universidade de Oxford, com a conceção e entrega de uma vacina altamente eficaz que pode ser entregue à escala nos países que mais precisam dela", frisou Adrian Hill, que é também o diretor do Instituto Jenner.

Os criadores e produtores da vacina (Universidade de Oxford e Instituto Jenner) esperam que a sua vacina seja "um passo decisivo para reduzir mais de meio milhão de mortes anuais relacionadas com a malária e melhorar a saúde de milhões de pessoas em África e não só".

"A malária é uma doença potencialmente mortal que afeta desproporcionadamente as populações mais vulneráveis da nossa sociedade e continua a ser uma das principais causas de morte infantil”, referem.

O desenvolvimento de “uma vacina que terá um grande impacto sobre este enorme fardo da doença tem sido um desafio extraordinário", sublinhou o administrador do Instituto Serum da Índia, Adar Poonawalla.

A vacina contém a “Matrix-M” da Novavax, um adjuvante que reforça a resposta do sistema imunitário, tornando-a mais potente e mais duradoura
. O “Matrix-M” estimula a entrada de células antigénicas no local da injeção e melhora a apresentação antigénica nos gânglios linfáticos locais. Esta tecnologia também tem sido utilizada na vacina contra a covid-19 da Novavax e é um componente-chave de outras vacinas em desenvolvimento.

"Estamos encantados por o adjuvante 'Matrix-M' ter contribuído para o sucesso desta promissora e muito necessária vacina contra a malária. Pretendemos desbloquear o potencial do nosso adjuvante, tanto a curto prazo como ao longo do tempo, para melhorar ainda mais a saúde pública", afirmou o presidente e administrador da Novavax, John C. Jacobs.R21 junta-se à Mosquirix para combater a doença A primeira vacina contra a malária a Mosquirix, da farmacêutica britânica GSK, foi aprovada pela Organização Mundial da Saúde em 2021, após décadas de trabalho. No entanto, a falta de financiamento e o potencial comercial estão a reduzir a capacidade do fabricante britânico de produzir as doses necessárias. O que demonstra a necessidade de uma segunda vacina.

A GSK comprometeu-se a produzir até 15 milhões de doses de Mosquirix anualmente até 2028, um valor muito abaixo dos cerca de 100 milhões de doses de vacinas de quatro doses que, segundo a OMS, são necessárias para, a longo prazo, imunizar cerca de 25 milhões de crianças.

O Gana, Quénia e Malawi estiveram envolvidos no programa-piloto para o lançamento da Mosquirix, e, nos últimos meses, começaram a introduzi-la mais amplamente nos planos de vacinação.Desde o início da vacinação, 1.2 milhões de crianças dos três países já receberam pelo menos uma dose da vacina Mosquirix.

No passado mês, a OMS afirmou que nas áreas onde a vacina foi administrada, a mortalidade infantil diminuiu dez por cento.

c/agências
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