Mandato da Missão da ONU renovado apesar das denúncias de abusos
O Conselho de Segurança renovou hoje por mais seis meses o mandato da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) no meio de denúncias de abusos dos direitos humanos cometidos pelos capacetes azuis.
A Missão tem vindo a ser acusada por organizações não governamentais haitianas de não ter contribuído para a segurança do Haiti, pouco fazendo para recolher as 210.000 armas ilegais que se calcula existam actualmente em circulação.
Além disso, a força da ONU, criada em 2004 sob comando brasileiro e que conta actualmente com 7.500 soldados (1.200 brasileiros) e quase 2.000 polícias, foi acusada de violações dos direitos humanos.
Várias organizações humanitárias anunciaram recentemente uma investigação conjunta aos alegados abusos dos direitos humanos cometidos pelos capacetes azuis em Cité Soleil, bairro da lata da capital haitiana, na sua ofensiva para eliminar os "bandidos" armados.
Segundo o Haiti Information Project, a investigação começou no dia 01 de Fevereiro e é levada a cabo pela Associação dos Universitários Motivados por um Haiti com Direitos (AUMOHD), a Comissão dos Advogados para o Respeito pelas Liberdades Individuais (CARLI), pela Comissão de Defesa dos Direitos do Povo Haitiano (CDPH) e pelo Centro de Observação Cidadã (SOS).
De acordo com Evel Fanfan, da AUMOHD, a forma como os cidadãos da Cité Soleil estão a ser tratados "é um crime contra a dignidade humana" e uma "forma de barbárie moderna".
Acusando a MINUSTAH de violar a sua missão de "manutenção da paz", usando munições blindadas em zonas densamente povoadas, a investigação destas organizações humanitárias encontrou provas de danos em escolas causados por disparos e mesmo no hospital de Santa Catarina, onde uma parte do muro foi derrubada.
Em alguns locais de Cité Soleil a população diminuiu dramaticamente devido à violência da ONU, pode ler-se na notícia do Haiti Information Project, nalguns "restam apenas 30 por cento" dos habitantes e, noutras, "ainda menos".
A delegação enviada pelas organizações humanitárias foi testemunha de um incidente em que soldados da MINUSTAH dispararam contra três civis, originando a morte de dois deles.
De acordo com o Haiti Information Project, a MINUSTAH tem estado a ser pressionado por elementos do sector privado, os mesmos que apoiaram o derrube do Presidente Jean Bertrand Aristide em Fevereiro de 2004, para aumentar o uso da força nas suas acções em Cité Soleil.
O empresário Charles Henri Baker, presidente da Câmara do Comércio e até agora terceiro candidato presidencial mais votado nas eleições do dia 07, pediu mesmo publicamente às Nações Unidas para "limpar" Cité Soleil dos alegados "criminosos" do Fanmi Lavalas, antigo partido de Aristide.