Mandela escolheu em 1961 a luta armada e uma aliança com os comunistas

A imagem de um Mandela conciliador e pacifista não faz consenso: contra o pacifista Albert Luthuli, ele impôs em 1961 a opção pela luta armada e por uma aliança com os comunistas. Testemunhas da época e um historiador actual sustentam mesmo que Mandela era, à data da sua prisão, membro do Comité Central do Partido Comunista.

RTP /
Em 1960 Mandela queria imitar o exemplo da revolução cubana Chris Kotze, Reuters

O massacre de Sharpeville, em Março de 1960, criara na sociedade sul-africana uma forte corrente a favor da luta armada. Nelson Mandela  era o mais destacado dirigente dessa tendência e desafiou audazmente o Prémio Nobel da Paz, Albert Luthuli, que, à cabeça do ANC, pretendia manter uma política de não-violência.
Mandela, dirigente do braço armado do ANCMandela impulsionou a criação do braço armado do ANC, "Umkhonto we Sizwe", e conseguiu impedir que os membros do ANC fossem expulsos pela direcção luthulista por se envolverem na luta armada.

Entretanto, se não lhe faltavam voluntários para a guerrilha anti-apartheid, escasseavam os meios técnicos e financeiros. Nisso, levava vantagem o ultra-minoritário South African Communist Party (SACP), com os seus membros estimados apenas em 500, mas com um acesso privilegiado aos chamados países socialistas.

Logo a seguir ao massacre de Sharpeville, quatro dirigentes comunistas viajaram para Moscovo e Pequim, reuniram-se com Mao Tsé Tung, e receberam garantias de apoio material. No regresso à África do Sul, traziam poderosos trunfos para uma discussão frutífera com um Mandela ansioso por passar à acção.

A versão oficial do ANC é a de ter resultado da complementaridade entre as duas forças uma aliança para passar à luta armada. Mas o historiador Stephen Ellis, da Universidade de Amsterdão, sustenta que Mandela foi muito mais longe e aceitou mesmo ser recrutado pelo SACP, tendo sido membro activo do seu Comité Central pelo menos até cair nas mãos da polícia.

Ellis invoca em favor da sua tese um documento posterior ao facto, datado de 1982 e arquivado na Universidade da Cidade do Cabo. Trata-se da acta de uma reunião do Comité Central do SACP em que o dirigente comunista John Pule Motshabi evoca as circunstâncias e contexto em que Mandela teria sido recrutado.

Ellis invoca também o testemunho de seis outros veteranos da direcção do SACP como Hilda Bernstein, entrevistada em 2004: "Mandela nega que alguma vez tenha sido membro do partido, mas posso dizer-lhe que ele foi membro do partido durante algum tempo". O dirigente John Matthews não afirma apenas a militância de Mandela no SACP, mas também a sua participação no Comité Central.
Mandela na presidênciaMesmo depois de 27 anos de cadeia, ao ser libertado, então já indiscutivelmente desligado de qualquer militância no SACP, Mandela mantinha contudo a atitude de um firme aliado de vários regimes e movimentos que estvam longe de ser benquistos aos olhos das potências ocidentais.

O site de Al Jazeera enumera sistematicamente várias posições que o ícone da luta anti-apartheid assumiu e que parecem esquecidas no meio do coro de homenagens que agora lhe são prestadas. A aproximação de Mandela ao SACP em 1960-1961 terá sido, segundo esta perspectiva, não apenas um cálculo sobre os apoios facilitados por essa via, como sustenta Ellis, mas também o entusiasmo do dirigente sul-africano pelo êxito do Ejercito Rebelde em Cuba, no ano anterior.

Segundo Peter Hain, um companheiro de Mandela nessa fase, citado em Al Jazeera, o dirigente do braço armado do ANC viajou clandestinamente à Etiópia e à Argélia, para receber instrução militar que lhe fosse útil na luta contra o regime racista.

Mais tarde, durante a sua presidência (1994-1999), Mandela continuou a manifestar simpatia por dirigentes como Fidel Castro, Che Guevara, Muhamar Khadafi, Yasser Arafat.

Em 1991, visitou Cuba e homenageou os feitos revolucionários de Che Guevara, que foram "demasiado poderosos para quaisquer censores prisionais os esconderem de nós. A vida do Che é uma inspiração para todos os seres humanos que amam a liberdade".

Em 1998 deu um banquete em honra do visitante Arafat e disse: "Vens até nós como dirigente de um povo que partilhou connosco a experiência da luta pela justiça. Agora, que conseguimos a nossa liberdade, não esquecemos os nossos amigos e aliados, que nos ajudaram a libertarmo-nos".


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