Mandela esteve sempre convicto da vitória contra `apartheid`

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A investigadora sul-africana Sham Venter afirmou hoje que o líder histórico Nelson Mandela esteve sempre convicto da sua vitória na luta `anti-apartheid`, mesmo durante os 27 anos em que esteve preso.

Em entrevista à agência Lusa, em Joanesburgo, a jornalista e autora de "As cartas de prisão de Nelson Mandela", um livro hoje publicado em Portugal, diz que toda a correspondência do antigo Presidente sul-africano mostrava um claro otimismo no sucesso da luta contra o regime racista.

"Isso é evidente nestas cartas e ele trabalhava incansavelmente nesse sentido. Não tenho a certeza se realmente acreditava que um dia viria a ser o Presidente da África do Sul e um líder de estatura mundial", mas "aproveitou ao máximo as oportunidades criadas pelas circunstâncias do momento", afirma a escritora.

Sahm Venter explica que passou cerca de dez anos a trabalhar com todos os arquivos e registos oficiais sobre Mandela no Arquivo Nacional da África do Sul e na própria Fundação Nelson Mandela, contactando ainda com fontes familiares e amigos do prémio Nobel da Paz para compilar e organizar o acervo de cartas agora publicadas, na sua maioria desconhecidas do grande público.

O livro, já publicado na África do Sul, junta 255 cartas escritas por "Madiba", como é conhecido no país.

Segundo a autora, as cartas constituem um terço do acervo reunido para a Fundação Nelson Mandela.

A coleção encontra-se organizada por ordem cronológica e dividida pelas quatro instituições prisionais por onde Mandela passou desde 5 de Agosto de 1962 até à data da sua libertação em 11 de Fevereiro de 1990: Pretória Local Prison (1962-1963), Robben Island Prison (1964-1982), Pollsmoor Prison (1982-1988) e Victor Verster Prison (1988-1990).

"Pretendi com este livro, contar a história de uma vida na prisão que começa no dia em que foi detido no dia 5 de agosto de 1962", mas "a primeira carta neste livro foi escrita na véspera da sua (primeira) condenação", explica.

Sahm Venter considera a obra como "a voz de Madiba, exatamente como ele a escreveu na altura em que esteve preso, provavelmente o período mais desgastante de toda a sua vida".

"Foi como se eu tivesse encarnado numa mosca que pairou na parede da sua cela, alguém que teve a oportunidade de recuar no tempo e ficar ali, sentada, a sentir como a vida passava por ele ou a imaginar como teria sido. Foi uma experiência pessoal muito especial", conta a investigadora e jornalista sul-africana.

A convicção com que Nelson Mandela entrou pela primeira vez numa prisão, em 5 de Agosto de 1962, foi precisamente a mesma com que saiu em liberdade 27 anos depois, disse à Lusa a investigadora.

Sahm Venter refere que a contínua determinação de Mandela em mudar uma sociedade economicamente dividida e racialmente segregada, pese embora todos os sacrifícios por que passou, foi um dos fatores mais marcantes na compilação das suas cartas de prisão que escreveu durante 27 anos de encarceramento.

A investigadora adianta que a nova coleção de cartas de prisão de Mandela, publicadas quarta-feira, em Joanesburgo, consolida o facto de se estar perante um homem que tomou decisões "muito concretas acerca do seu comportamento".

Mandela "nunca aceitaria ser recluso e ser tratado como inferior; iria sempre manter a sua dignidade e ser dignificado perante os outros, mesmo que fossem guardas prisionais ou funcionários do governo e através do seu exemplo, congregar as pessoas à sua volta. Madiba não se deixava influenciar por comportamentos, e por isso mantinha o controlo da sua personalidade e caráter e isso foi um aspeto importante que pretendi realçar neste livro", afirma.

Sobre as dificuldades que enfrentou, a autora realça apenas uma: "o facto de ele não continuar a estar presente para me ajudar a precisar a informação sobre quem é quem para facilitar a leitura aos leitores em várias partes do mundo."

"Mas tive a oportunidade de passar muitas horas com Winnie Mandela que me ajudou, de forma excecional, a identificar certos lugares e certas pessoas. Winnie entusiasmou-se imenso com o projeto e tinha uma memória excelente, apesar dos seus 81 anos de idade", disse.

Entre as 255 cartas publicadas, a autora destacou à Lusa uma missiva que Mandela, que contava já com 24 anos na prisão, escreveu a uma pessoa amiga, funcionária do Alto Comissariado das Nações Unidas, em Mogadíscio, Somália.

"A África do Sul havia decretado o Estado de emergência na altura. O país estava virtualmente em guerra civil e Mandela continua na prisão, e então escreve esta carta dizendo que `quando um homem se compromete a este tipo de vida há 45 anos, mesmo que possa não estar preparado, é impossível prever a realidade e o curso dos acontecimentos que influenciam a sua vida. Se pudesse antecipar tudo o que aconteceu, certamente que voltaria a tomar a mesma decisão". Mais uma vez, revela o seu comprometimento", diz Sahm Venter.

A investigadora recorda ainda um outro momento em que meses antes da sua detenção, Mandela tinha participado numa conferência em Pietermatizburg, no litoral sul do país, onde foi solicitado a escrever ao primeiro ministro da África do Sul do Apartheid, Hendrik Verwoerd, a instar a que a África do Sul não abandonasse a Commonwealth de nações.

Mandela, que escreveu por duas vezes sem resposta, propôs como alternativa a realização de uma convenção nacional para se elaborar uma constituição não racial para a África do Sul. Vinte e sete anos depois, ao sair em liberdade, o mesmo Mandela voltou a fazer o mesmo apelo, precisou Sahm Venter.

Com edições em Portugal e no Brasil, o livro conta ainda com mais seis edições em inglês, alemão, françês, holandês, italiano e sueco.

"As cartas de prisão de Nelson Mandela" é o primeiro volume de cartas de uma série de três que Sahm Venter pretende levar à estampa.

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