Manifestação das vítimas do terrorismo - uma guerra de números
A manifestação de vítimas do terrorismo, sábado em Madrid, continua quatro dias depois a causar polémica, não pela troca de críticas entre governo e oposição mas antes pela "guerra dos números" quanto aos participantes no evento.
Simplesmente, a diferença de estimativas no caso do protesto de sábado é tão grande - variando entre os pouco mais de 110 mil da polícia e os 1,7 milhões dos organizadores - que suscitou uma ampla polémica, envolvendo o governo, a oposição, a Comunidade de Madrid, a polícia e vários "blogs" e sites na Internet.
O assunto assume particular importância, tanto pelo peso político que um ou outro número teriam, mas igualmente porque traduz, segundo vários especialistas, o que constitui um dos maiores desafios do jornalismo: a contagem de manifestantes.
Os principais meios de informação espanhóis optaram, de uma forma geral, por aludir à participação de "dezenas de milhares" de pessoas. Contudo, de um lado e de outro da matemática de manifestações, as opiniões polarizaram-se, com trocas de acusações e até de insultos.
A polémica em torno de quantos eram afinal os manifestantes até já conseguiu envolver o Ministério da Agricultura, ou mais propriamente o seu programa SigPac, que é usado para identificar parcelas agrícolas e permite medir superfícies.
Oficialmente, os números e os argumentos para os justificar variaram significativamente, com a Associação de Vítimas de Terrorismo (AVT) - que promoveu o protesto - a usar a "experiência de acções anteriores" como argumento "científico" para validar os números.
Já a Delegação do Governo espanhol em Madrid foi mais longe, apresentando pela primeira vez em público um relatório pormenorizado, preparado pelo Comissariado Geral de Segurança dos Cidadãos da Direcção Geral de Polícia, em que explica como chegou ao número exacto de 110.989 manifestantes.
O relatório baseia-se em imagens recolhidas de helicóptero, mostrando toda a Rua Serrano onde decorreu o protesto depois dividida em seis sectores e 49 zonas que no seu total perfaziam 72.981 metros quadrados.
Foi depois quantificada a superfície ocupada em cada zona, estabelecendo oito níveis de ocupação, em seguida determinado o nível de ocupação de cada zona, mediante uma visão "directa e perpendicular do ar", e os dados foram comunicados em tempo real ao dito Comissariado da Polícia.
Contas feitas: 110.989 manifestantes, bastante abaixo dos 1,4 milhões da Comunidade de Madrid (liderada pelo PP) e dos 1,75 milhões dos organizadores.
Some-se a isto um outro número da Confederação Espanhola de Polícia (CEP) - uma das entidades que apoiaram a manifestação e que nela participaram - que estima terem participado cerca de 600 mil manifestantes.
Mais amplo do que o divulgado oficialmente pela polícia, este número é no entanto menos de metade da estimativa da Comunidade de Madrid e quase um terço menos do que os números dos organizadores.
A polícia já chegou mesmo a dizer que duvida de que alguma vez tenha havido manifestações em Madrid de mais de um milhão de pessoas, incluindo os grandes protestos anti- guerra do Iraque em 2004.
Para ter havido 1,7 milhões de pessoas na manifestação de sábado, explica a polícia, teriam de estar, não três, mas 25 pessoas por metro quadrado, o que suscitou caricaturas em que um "organizador" aponta para uma pirâmide de pessoas que diz "provar" a estimativa mais "inflacionada".
Quem não gostou foi o PP, que acusou o governo de "manipular os números".
As contas e as estimativas, porém, não se ficaram por aqui, com o tema a espalhar-se pela imprensa e, muito mais rapidamente ainda, pela Internet, com cientistas, especialistas e cibernautas a confrontarem modelos, opções e estratégias de contagem dos participantes.
Uma das entidades que se dedicam a contar manifestantes, desde 2000, é a Contrastant, de Barcelona, que enviou cinco pessoas para "medir" o protesto de Madrid e calcular a densidade da manifestação nos seus vários pontos.
Calculando duas pessoas por metro quadrado em movimento e três quando o protesto estava parado, a Contrastant - aplicando uma margem de erro de 10 por cento - chegou a uma estimativa que varia entre as 76.322 e os 93.282 pessoas, menos ainda do que as contas da polícia.
Outro dos espaços onde se contam protestos é o "Manifestómetro", um blog criado por cinco amigos que "testaram" a sua capacidade matemática num protesto da oposição contra a Lei Orgânica da Educação em Novembro.
O Manifestómetro explica que a área total ocupada foi de 54.935 metros quadrados, estimando várias possibilidades de número de pessoas por metro quadrado para chegar a uma estimativa entre 109 e 274 mil participantes.
Falta referir um dado quiçá importante: a polícia admitiu que parte das imagens recolhidas de helicóptero foram obtidas quando começava a chover e, como tal, várias pessoas tinham já aberto guarda-chuvas.
Pelo menos para já, não parece haver uma forma de calcular "cientificamente" o número de pessoas por guarda- chuva, por metro quadrado.