Manuel Zelaya desafiou o poder instalado e pisou solo do seu país

O presidente deposto, Manuel Zelaya, entrou por momentos no solo hondurenho na passada sexta-feira, pela primeira vez desde o seu derrube à força em 28 de Junho. Recebido em apoteose regressou à Nicarágua, poucos minutos depois.

Eduardo caetano, RTP /
Com a conivência das forças policiais, Manuel Zelaya entrou nas Honduras e foi recebido apoteoticamente pelos seus apoiantes Mario Lopez, EPA

Manuel Zelaya protagonizou na sexta-feira um episódio que, se por um lado significou uma clara reafirmação da sua vontade de lutar por aquilo que chama a reposição da legalidade, por outro lado constituiu sem sombras de dúvidas uma clara provocação ao poder instalado e ao seu presidente de facto, Roberto Micheletti.

Zelaya acompanhado por uma multidão de jornalistas e de partidários entrou a pé em território das Honduras às 14h25 locais (20h25 GMT) antes de regressar à Nicarágua onde passou a noite na localidade de Ocotal.

O Governo instalado nas Honduras mobilizou dezenas de polícias e de militares fortemente armados para vigiar as fronteiras do país e impedir uma possível entrada do presidente constitucional do país.

Micheletti qualificou mesmo de "irresponsável" a iniciativa do presidente deposto afirmando claramente que, se ele entrasse em território hondurenho, "ele seria, como prevê a Constituição, preso pela Polícia Nacional e não pelos militares" acusado de traição e corrupção.

Na sexta-feira, por ocasião da entrada de Zelaya em território das Honduras, pôde-se observar que as forças policiais efectuaram uma retirada do local. Pretenderam talvez, evitar com a prisão de Zelaya, o agravamento da situação em que o país se encontra face ao mundo e sobretudo face aos Estados americanos.

Vestido à cow-boy, com o seu característico chapéu e de telemóvel na mão, Zelaya chegou a manter uma conversação com o coronel que comanda o posto de fronteira da localidade de Las Manos, situado a uma centena de quilómetros a sudoeste da capital Tegucigalpa.

A sua pretensão chegou mesmo a ser a de falar com o responsável pelas Forças Armadas do seu país. "Ponham-me em contacto com o Chefe de Estado-Maior" do Exército, o general Romeo Vasquez pediu Zelaya ao militar depois de o cumprimentar com um aperto de mão.

Pouco antes pedira às autoridades de facto do país que permitissem a passagem dos seus familiares, amigos e partidários para que pudesse falar com eles.

Os militares não autorizaram e impediram a sua esposa, os seus filhos, a sua mãe e a sua sogra de se encontrarem com ele segundo as próprias contaram á cadeia de televisão Telesur.

Os muitos milhares de partidários de Zelaya ao saberem da presença do seu líder dirigiram-se para aquela localidade fronteiriça para o acolher. Foram, no entanto, impedidos de cumprir o seu destino pelas forças de ordem que actuaram no sentido de evitar o reencontro.

Vários incidentes foram registados por volta do meio-dia, hora do início da interdição de circulação imposta pelas autoridades de Tegucigalpa. Granadas lacrimogéneas foram lançadas pela polícia para dispersar os manifestantes na cidade de El Paraíso, a poucos quilómetros da fronteira. Aqueles ripostaram lançando pedras contras as forças policiais.

Zelaya partiu de Manágua, capital da Nicarágua, no dia a seguir ao falhanço das últimas rondas de negociação entre as duas partes na Costa Rica com o Governo das Honduras a manter a interdição de regresso de Manuel Zelaya ao país.

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