Maremoto torna-se símbolo turístico em Aceh
O turismo na província indonésia de Aceh, uma das mais afetadas pelo maremoto de 2004, aumentou nos últimos dez anos, transformando o tsunami de 2004 numa das principais atrações.
"A maioria dos turistas está curiosa para ver o impacto do tsunami em Aceh. É por isso que estamos a tentar promover o tsunami como uma das mais principais atrações do turismo", disse o presidente do departamento de turismo e cultura no governo da província autónoma de Aceh, Reza Pahlevi.
De acordo com o mesmo responsável, o tsunami tornou a província "mais popular no mundo", também porque "houve muitos trabalhadores internacionais de organizações não-governamentais a virem para Aceh".
O turismo na província mais a norte da ilha da Samatra tem aumentado entre "10 a 15 por cento", superando um milhão de pessoas por ano, entre os quais "cerca de 42 mil" estrangeiros.
A promoção do maremoto como um produto turístico visa igualmente familiarizar as pessoas com "a gestão e mitigação de desastres", vincou o responsável máximo pelo turismo na província onde vivem mais de 4,4 milhões de pessoas.
Entre as novas atrações turísticas destacam-se o Museu do Tsunami de Aceh, o Jardim e Monumento do Tsunami instalados ao lado de um navio com 2600 toneladas que foi arrastado pelas ondas, tal como um barco de pescadores que ficou no topo de uma habitação.
Aceh, encarada como a Meca da Indonésia, é também um local atrativo para turismo histórico e religioso, para além de ser um destino apreciado por amantes de desportos marítimos e da natureza.
"Os turistas não eram realmente muito bem-vindos em Aceh antes do tsunami, porque era considerada uma área perigosa", lembrou Reza Pahlevi, referindo-se a 29 anos de conflito armado entre o exército indonésio e o Movimento Aceh Livre, que custou 15 mil vidas até à assinatura de um acordo de paz em 2005, catalisado pelo maremoto.
Antes do tsunami, o surfista australiano Michael Hamilton tinha de obter o visto na cidade de Medan para conseguir entrar em Aceh, que, na altura, atraia alguns turistas, mas não estava "tão ocupada como agora".
O amigo Chris Mitchell junta-se à conversa explicando que vêm à Indonésia somente em busca das melhores ondas.
Ambos estão hospedados junto à praia no Yudi`s Place, onde o número de visitantes "tem aumentado", segundo Sarah Morrison, gestora do espaço, onde pernoitam sobretudo estrangeiros.
Sarah Morrison respondeu que nunca conheceu "ninguém que viesse aqui apenas porque houve um tsunami, o que não quer dizer que não haja".
"O número de turistas tem aumentado a cada ano. Podemos ver isso no número de hotéis em torno desta área, temos muitos hotéis, e mesmo no nosso hotel, até ao início de 2015, vamos começar a aumentar o número de quartos", referiu Posma M. Silitonga, do Hermes Palace.
Também os números no Museu do Tsunami de Aceh estão em crescendo, tendo atingido as 433574 visitas no ano passado, mais do dobro do que em 2011.
Segundo dados partilhados por Luís Mota, que está a fazer um estudo de pós-doutoramento sobre o desenvolvimento turístico dez anos pós-tsunami, com foco na segurança turística, na Universidade de Syiah Kuala, em Banda Aceh, em nove anos a província recebeu cerca de 6,8 milhões de indonésios e 186 mil estrangeiros.
O português, doutorado pela Universidade de Santiago de Compostela, em Espanha, e que se encontra em Aceh ao abrigo do programa Erasmus Mundus, com uma bolsa Experts4Asia, destacou que o turismo na região autónoma "ainda depende muito de turistas que procuram lugares remotos e subdesenvolvidos", pelo que "ainda há muito a fazer".
"Muitos são os turistas que passam por Banda Aceh e visitam os monumentos relacionados com o tsunami. As pessoas são curiosas, querem aprender, saber como foi e comparar com a situação atual, mas algumas pessoas com quem falei nem sabiam o que aqui aconteceu em 2004", relatou.
O tsunami de 2004, considerado o maior desastre natural do último século, provocou mais de 226 mil mortos numa dezena de países junto ao Oceano Índico, sendo mais de metade das vítimas da província de Aceh.