Marrocos. O desespero de ouvir "Não encontraremos ninguém aqui"

Na pequena aldeia de Algou, no alto das montanhas do Atlas, os bombeiros espanhóis chegaram ao fim de três dias após o terramoto ter devastado a comunidade de 28 pessoas. Apenas sete sobreviveram. As histórias de perda repetem-se. Na luta contra o tempo a OMS alerta para a falta de água e medicamentos.

Carla Quirino - RTP /
Hannah McKay - Reuters

Rabat aceitou, para já, a ajuda de equipas de apenas quatro países nas operações de busca após o sismo de sexta-feira.

Balanço após balanço, o número de vítimas é acrescentado. Já ultrapassou os 2.800. Hora após hora, as esperanças de se encontrar sobreviventes debaixo dos escombros diminui.

A entrar no quarto dia após o terramoto, no terreno estão equipas de Espanha, Reino Unido, Catar e Emirados Árabes Unidos. Madrid enviou um grupo com 86 socorristas.

Nas montanhas do Atlas, entre Marraquexe e Agadir, foram arrasadas localidades inteiras e há aldeias ainda isoladas. Foi o caso da aldeia de Algou que viu chegar apenas ao terceiro dia bombeiros espanhois.

Os gritos deram lugar ao silêncio descreve Omar Ait Mahdi, residente em Algou. Aqui moravam 28 pessoas e somente sete sobreviveram. A mulher de Omar estava no hospital e ele ainda não tinha encontrado as duas filhas, Hanane, de 17 anos, e Khadija, de 14.

Os cães das equipas espanholas confirmaram a não existência de sobreviventes. Igor e Teddy foram treinados para latir quando encontravam sinais de vida. Mais uma vez o silêncio desolador tomou conta da destrição da aldeia.

“Não há nada que possamos fazer aqui”, disse Juan Lopez, um bombeiro espanhol. “Não encontraremos ninguém aqui”, acrescentou enquanto caminhava até ao topo dos escombros. E de repente os corpos das meninas eram encontrados.

Omar voltou a querer falar para fazer um pedido: "Quero que as pessoas me ajudem. Quero que o mundo me ajude. Perdi as minhas filhas, a minha casa, tudo que tinha".

Hamid, tio das meninas, desolado, reiterou: “Precisamos muito de ajuda. E precisamos dela, venha de quem for”.
Entre o pesadelo e a realidade
Said Hartattouch, um marroquino de 34 anos correu de Marraquexe para a vila Tinmel onde vive a família, nas montanhas do Alto Atlas.

Quando lá chegou, a casa de infância estava destruída mas a mãe e as irmãs de Hartattouch estavam a salvo. Descreve a sensação de ter tido um sonho horrível “mas depois acordamos no dia seguinte e damos conta da realidade”. 
Said Hartattouch posa para a fotografia em frente à mesquita danificada de Tinmel | Hannah McKay - Reuters

Hartattouch também relata a dificuldade para recolher cobertores e a insulina da para a mãe.

Sem terem para onde ir, os moradores têm dormido ao relento desde o terremoto de sexta-feira. Os habitantes dizem que a vila recebeu pouca ajuda do governo e, está a depender de donativos e caridade.

Entre os relatos está uma mãe de um menino de 15 dias que explica que a criança precisa de farinha láctea e remédios.
Chegada do frio
Enquanto as ajudas não chegam os que sobreviveram tentam proteger os mais frágeis e vão deixando críticas ao governo. Afirmam que, “embora outras comunidades tenham recebido assistência, tiveram de se defender sozinhas, incluindo a procura de sobreviventes e a retirada de corpos dos escombros”.

Também é referida a necessidade urgente de tendas para proteger as pessoas da queda das temperaturas durante a noite. “É o início do frio. A primeira noite foi muito difícil”, sublinha Hartattouch.

Said, embora angustiado, remata dizendo que compreende falha nas ajudas estatais: “O problema da Cordilheira do Atlas é que ela é grande. Não é possível ajudar a todos”.
Ajuda às zonas mais atingidas
As Nações Unidas estimam que a catástrofe matou, feriu e afetou mais de 300 mil pessoas. A necessidade de assistência em Marraquexe e Atlas aumenta. Assistência alimentar, médica e abrigo.

A World Central Kitchen, uma organização não governamental fundada pelo famoso chef e filantropo José Andrés, afirmou que já estava em Marraquexe pronta para entregar comida.

“Estamos a fornecer sanduíches, frutas e água para garantir ajuda imediata e a nossa equipa em Espanha está a caminho com vários camiões com alimentos e equipamentos de cozinha para começar a preparar refeições frescas o mais rápido possível”, explica a organização na página da internet.

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho está em coordenação com o Crescente Vermelho Marroquino, uma organização não governamental, para apoiar operações de busca e salvamento e fornecer “primeiros socorros, apoio psicossocial e ajuda no transporte de feridos para hospitais”.

A federação alegou que desembolsou mais de 1,1 milhão de dólares do fundo de emergência para resposta a desastres.

As equipas de resgate tiveram dificuldade para aceder a muitas das comunidades isoladas por causa dos destroços que bloqueavam as estradas. Enquanto a maquinaria não chega, "escavam com as mãos para encontrar sobreviventes", descrevem elementos do Crescente Vermelho.

“Os desafios são vastos”, observou Caroline Holt, que dirige o departamento de desastres, clima e crises da federação, em comunicado. “O esforço de busca e resgate é o foco neste momento – e tentar levar maquinaria pesada para essas áreas remotas das Montanhas Atlas para ajudar. Isso é uma prioridade”.

Após a catástrofe, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização intergovernamental está pronta para ajudar Marrocos.

A UNICEF sublinhou que “as suas doações serão dirigidas para ajudar crianças e famílias deslocadas”.

c/agências
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