Massacre de Tiananmen. Proibidas celebrações devido a razões políticas e à pandemia

Pela primeira vez desde o massacre da Praça Tiananmen em 1989, não haverá nenhum evento de comemoração formal em território chinês. Devido, essencialmente, à pandemia e às alegadas dificuldades em manter o distanciamento social, as autoridades da República Popular da China, Hong Kong , Macau e Taiwan proibiram vigílias e comemorações.

RTP /
Reuters

Trinta e dois anos depois de o exército chinês avançar com tanques para dispersar os protestos estudantis em Pequim, provocando vários milhares de pessoas, numa mistura de censura, repressão do Governo às críticas e restrições da pandemia foram proíbidas quaisquer celebrações.

Várias organizações internacionais, como a "Human Rights Watch", têm criticado as autoridades chinesas pelos ecos que ainda se fazem sentir da repressão iniciada a 4 de junho de 1989 para acabar com as manifestações de estudantes, espoletadas em meados de abril daquele ano, com a morte do antigo presidente e secretário-geral do Partido Comunista, Hu Yaobang, a 15 de abril de 1989.

O balanço de vítimas resultantes desta histórica repressão militar na capital da China varia entre as várias centenas e os milhares de mortos. Mas para a história ficou a icónica imagem de um só manifestante a fazer frente a um tanque chinês.

Recordar e comemorar os acontecimentos violentos de 4 de junho nunca foi permitido na República Democrática da China, onde foi oficialmente censurado. Mas todos os anos, nesta altura, a censura aumenta no país: palavras, números, fotografias, símbolos - qualquer coisa que possa ser uma referência ao evento - são eliminados da Internet. Mas este ano as limitações e proibições de celebrações do massacre de Tiananmen estenderam-se a Hong Kong, Macau e Taiwan.
Há dois anos que Hong Kong não celebra data

Desde 1990 que se celebra esta data marcante em Hong Kong e Macau, mas tanto em 2020 como este ano, as autoridades destes territórios chineses alegaram restrições de combate à pandemia para proibir estes eventos.

As autoridades de Hong Kong, fiéis ao governo central da China, impuseram o encerramento do chamado "Museu Memorial do 4 de Junho", dedicado à memória do massacre na praça de Tiananmen.

O museu foi inaugurado em 2014, por altura do 25.° aniversário dos acontecimentos, tinha reaberto no passado domingo, a escassos cinco dias da vigília pelos 32 anos do sucedido e apresentava-se como uma das âncoras das tradicionais iniciativas de movimentos pró-democracia para manter viva a lembrança da repressão violenta pelo exército chinês de manifestações civis pró-democracia.

Já na semana passada, a polícia de Hong Kong proibiu a vigília em memória do massacre de Tiananmen, justificando a decisão com a prevenção da pandemia, dois dias após as autoridades de Macau terem feito o mesmo, disse fonte da organização.

"A justificação da polícia foi a pandemia e a impossibilidade de se manter o distanciamento social", explicou à imprensa Lo Wai Ming, da Aliança de Hong Kong de Apoio aos Movimentos Democráticos Patrióticos da China.

Questionado sobre se a razão da proibição da vigília teve como base razões políticas, o responsável disse não querer chegar ainda a essa conclusão, até porque a organização vai recorrer da decisão à Comissão de Recurso sobre Reuniões e Processões Públicas.

"A Aliança continuará a lutar pelo direito do público a lamentar, de forma legal, o incidente de 4 de junho", lê-se numa nota da Aliança de Hong Kong de Apoio aos Movimentos Democráticos Patrióticos da China.

Segundo o Guardian, O departamento de segurança de Hong Kong anunciou, entretanto, que qualquer pessoa que participe numa vigília, ou mesmo a promova, pode ter uma pena de até cinco anos de prisão.

As autoridades têm cerca de três mil oficiais prontos a atuar contra distúrbios caso de alguém tente organizar algum tipo de celebração na sexta-feira.

Vígilia em Macau transmitida online

A vigília em Macau em memória do massacre de Tiananmen também foi proibida pela polícia, que apontou razões políticas e de saúde pública. Contudo, será transmitida via online uma celebração.

A informação foi dada em conferência de imprensa, pelos deputados pró-democracia Au Kam San e Ng Kuok Cheong, organizadores da habitual vigília na Praça do Leal Senado em Macau. Na semana passada foi apresentado um recurso ao Tribunal de Última Instância, mas não foi ainda dada qualquer resposta, disse Au Kam San.

"De acordo com a lei, deve ser dada hoje", frisou.

Ainda assim, qualquer que seja a decisão do Tribunal de Última Instância a vigília será feita dentro de casa, mas "não será aberta ao público".

"O principal objetivo é evitar riscos políticos desnecessários", afirmou.

Já na plataforma Facebook, o também deputado pró-democracia Ng Kuok Cheong apelou aos residentes de Macau que acendam uma vela branca e que partilhem nas redes sociais. Aos pais, acrescentou Ng Kuok Cheong, que mostrem vídeos e informações aos filhos sobre os acontecimentos de 4 de junho de 1989 e que expliquem o contexto histórico e o impacto para as gerações futuras.

Na semana passada, a polícia de Macau proibiu a comemoração, no dia 4 de junho, na Praça do Leal Senado, devido ao risco de violações do Código Penal, mais precisamente o artigo 181.º sobre "ofensa a pessoa coletiva que exerça autoridade pública", o artigo 177.º referente a "publicidade e calúnia" e, finalmente, o artigo 298.º sobre "incitamento à alteração violenta do sistema estabelecido".

Esta foi a primeira vez que as autoridades de Macau citaram razões políticas para proibir a comemoração.

As autoridades justificaram também a proibição com medidas de prevenção da pandemia da covid-19, num território que não regista qualquer caso local de covid-19 há mais de 400 dias, que tem bares, discotecas, restaurantes, cinemas, casinos e hotéis abertos e que tem estado a apostar na revitalização do turismo e na organização de eventos desportivos.

"Em Hong Kong ainda dizem que é por causa da covid-19. Em Macau já nem jogam este jogo", disse o vice-diretor da organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) para a Ásia, Phil Robertson.
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