Médicos do maior hospital do centro de Moçambique em greve ao trabalho extra
Os médicos residentes do Hospital Central da Beira (HCB), a maior unidade do centro de Moçambique, iniciam segunda-feira uma paralisação do trabalho extraordinário, por tempo indeterminado, até ao pagamento das horas extras em atraso.
O anúncio da paralisação do trabalho extraordinário consta de uma carta enviada pelos médicos residentes ao diretor-geral do HCB e que a Lusa teve hoje acesso, com os profissionais a justificarem que há mais de dois anos e meio que não recebem horas extras referentes às urgências médicas, rondas aos finais de semana e feriados.
Segundo o documento do coletivo constituído por cerca de 60 médicos, a falta de pagamento está a levar ao desgaste físico, emocional e económico devido a deslocações ao local do trabalho e gastos com alimentação, além do desgaste face à carga de trabalho nas urgências que, muitas vezes, chega a durar o dia inteiro, "afetando assim a sua qualidade de vida bem como dos seus dependentes e da sua formação enquanto médicos residentes".
"Após vários encontros com a direção do hospital percebeu-se a falta de clareza e para quando o pagamento de horas extras de forma corrente aos médicos residentes provenientes de outras orgânicas", indica-se na carta enviada ao diretor-geral do hospital.
Em outubro, o HCB garantiu que já estavam regularizados os pagamentos em atrasos aos médicos residentes, tentando ultrapassar a greve anunciada dias antes por este grupo de profissionais.
"Neste momento que estamos falando já existe, o dinheiro está desembolsado e se reflete na plataforma financeira do hospital", disse na altura o porta-voz do HCB, Bonifácio Cebola, justificando a situação com problemas "burocráticos" relacionados com as unidades de origem destes profissionais e nas transferências do Governo.
O setor da saúde enfrenta, há quatro anos, greves e paralisações convocadas pela Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM), que abrange cerca de 65.000 profissionais de saúde de diferentes departamentos.
Na segunda-feira, esta associação anunciou a prorrogação de uma greve por mais 30 dias, relatando que mais de 725 pessoas morreram por falta de condições de atendimento nas unidades sanitárias desde janeiro, período que foi anunciada a paralisação em reivindicação ao pagamento total do 13.º vencimento.
No mesmo dia, o ministro moçambicano da Saúde disse que a greve dos profissionais do setor é "uma tristeza", admitindo haver problemas após o anúncio de prorrogação da paralisação.
O Sistema Nacional de Saúde moçambicano enfrentou também, nos últimos três anos, diversos momentos de pressão, provocados por greves de funcionários, convocadas pela Associação Médica de Moçambique (AMM) e exigindo melhorias das condições de trabalho.
Moçambique forma anualmente mais de 200 médicos, em seis universidades, após um período de quase inexistência de profissionais no país, logo após a independência, há 50 anos, indicam dados da Ordem dos Médicos moçambicanos, avançados à Lusa em junho do ano passado.