Meta acusa Bielorrússia de criar dezenas de perfis falsos para provocar crise migratória

por Graça Andrade Ramos - RTP
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A empresa Meta, ex-Facebook Company, detetou dezenas de contas falsas criadas em redes sociais pelos serviços secretos bielorrussos para incentivar uma crise migratória na fronteira do país com a Polónia e agravar tensões dentro da União Europeia.

Um relatório publicado quarta-feira indica que foram detetados e removidos 41 perfis no Facebook, cinco contas no Facebook Groups e quatro contas no Instagram, por violação de regras, nomeadamente “comportamento não-autêntico coordenado”.As contas eram de alegados jornalistas e ativistas, refere a Meta, que publicavam críticas às atitudes das autoridades polacas e incluíam alegações de que a guarda fronteiriça polaca estava a utilizar a força e a intimidação contra refugiados e migrantes.

“Estas personas fictícias publicavam críticas à Polónia, em inglês, polaco e curdo, incluindo fotografias e vídeos de guardas polacos a alegadamente violarem os direitos dos migrantes, e comparando o tratamento dado na Polónia aos migrantes com o de outros países”, refere o relatório.

Apesar de as pessoas por trás disto terem tentado esconder as suas identidades e coordenação, a nossa investigação revelou ligações ao KGB bielorrusso”, acrescenta o documento.

Foram ainda removidas 31 contas de Facebook, quatro dos Grupos e quatro do Instagram, que seriam originárias da Polónia e que visavam dissuadir eventuais migrantes de sequer iniciar a viagem.

O foco das publicações eram audiências na Bielorrússia e no Iraque. Os falsos perfis polacos “afirmavam estar a partilhar a sua experiência negativa de tentar entrar na Polónia a partir da Bielorrússia e publicavam conteúdos sobre a vida difícil dos migrantes em território europeu”, refere o relatório da Meta, sem contudo ligar as contas falsas ao Estado polaco.

Os perfis removidos também falavam “das políticas polacas severas anti-imigração e atividade anti-imigrante neo-nazi na Polónia”, acrescenta o texto.

A investigação integra-se num esforço alargado e mais agressivo por parte do Facebook no encerramento de contas coordenadas de usuários reais que utilizam a plataforma para atividades prejudiciais de terceiros, incluindo influenciar eleições nalguns países.

A empresa tem estado a ser pressionada por advogados, empregados e reguladores para evitar o abuso dos seus serviços.
Novas regras
Os três países europeus que fazem fronteira com a Bielorrússia, Polónia, Lituânia e Letónia, defendem as suas estratégias de empurrar os migrantes sem previamente lhes conceder a oportunidade de pedir asilo à luz do Direito Internacional. Apesar de alguns migrantes terem embarcado em voos de repatriamento, o Ministério da Administração Interna lituano afirmou que cerca de 10.000 migrantes permanecem na Bielorrússia na esperança de entrarem na União Europeia. “Até serem devolvidos aos seus países e origem através de voos a partir de Minsk, permanece o risco de serem desviados para a Lituânia”, referiu o Ministério.

Esta quarta-feira, 1 de dezembro, entraram em vigor na Polónia e na Lituânia diversas medidas para dificultar ainda mais a travessia da fronteira, vindo da Bielorrússia.

A Polónia impôs nova legislação a restringir a liberdade de movimentos perto de um troço de três quilómetros junto à fronteira, após o terminus às 23h59 de 30 de novembro de um decreto que impunha o estado de emergência.

Na Lituânia, o Governo pediu ao Parlamento o prolongamento até 9 de janeiro do estado de emergência em vigor e autorização de buscas a “veículos suspeitos” na sua fronteira com a Polónia, a rota privilegiada dos migrantes para seguirem viagem para a Alemanha.

A Letónia tem estado a reforçar com arame farpado a sua fonteira com a Bielorrússia.

Em Bruxelas, a Comissão Europeia estuda o abrandamento das regras sobre asilo para acelerar o processamento dos pedidos e as deportações, assim como as leis sobre detenção.
Entalados
O KGB da Bielorrússia não comentou o relatório relativo às contas que lhe foram atribuídas.

O governo bielorrusso, liderado pelo presidente Alexander Lukashenko, tem sido acusado pela União Europeia de criar uma crise migratória na sua fronteira leste em retaliação e vingança por sanções impostas pela EU a Minsk, ao encorajar milhares de pessoas do Médio Oriente e de África a tentar entrar no território europeu através da Polónia e da Lituânia. O regime estará alegadamente a usar falsos pacotes de viagens incluindo acesso simplificado à Alemanha para atrair a Minsk milhares de migrantes, sobretudo no Iraque e na Síria. Uma vez na Bielorrússia, as pessoas serão encaminhadas até à fronteira polaca pelos serviços secretos e militares do país. A estratégia terá ainda o beneplácito de Moscovo.

O presidente bielorrusso recusa as acusações e contrapõe que é Bruxelas quem está a provocar a crise ao impedir a entrada dos migrantes.

Grupos de defesa de Direitos Humanos denunciaram a morte de 13 pessoas na zona fronteiriça e as condições deploráveis m pleno inverno a que estão a ser submetidos os migrantes, entalados entre os guardas bielorrussos que não os deixam regressar ao país e os guardas polacos que os impedem de prosseguir viagem.

Na Alemanha, a polícia federal afirmou dia 1 de dezembro que se deu um declínio nas entradas ilegais no país provenientes da Bielorrússia através da Polónia. Em novembro realizaram-se 2,849 entradas não autorizadas, pouco mais de metade dos números registados em outubro.
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