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México escolhe Obrador para enfrentar violência, corrupção e Trump
Os mexicanos escreveram no domingo uma página de História com a eleição de Andrés Manuel López Obrador para a Presidência. É a primeira figura de esquerda a sentar-se na cadeira do poder do México, um país minado por índices igualmente históricos de violência, corrupção generalizada e a viver um dos momentos mais abrasivos da relação com os Estados Unidos.
À terceira candidatura e aos 64 anos, López Obrador triunfou. AMLO, como lhe chamam os mexicanos, conquistou a Presidência do México com mais de 53 por cento dos votos, cilindrando os adversários Ricardo Anaya, jovem conservador à frente de uma coligação centrista, e José Meade Kuribreña, o rosto da formação política até agora no poder, o Partido Revolucionário Institucional – ambos foram lestos no reconhecimento da derrota.Nas eleições de domingo estiveram em jogo mais de 18 mil mandatos.
No discurso de vitória, o veterano da esquerda mexicana disse-se “muito consciente” da sua “responsabilidade histórica”. E expressou o desejo de “ficar na História como um bom Presidente”. Pela frente, na Praça da Constituição, ou el Zócalo, na Cidade do México, tinha largos milhares de apoiantes.
Obrador prometeu também “mudanças profundas” aos mexicanos, “sem ditadura”, num eco do que havia já afirmado ao votar na manhã de domingo, quando não resistira a comprometer-se com a expulsão da “máfia do poder” - uma farpa ao Presidente cessante, o cada vez mais impopular Enrique Peña Nieto.
Antena 1
Ao leme do Morena, o Movimento de Regeneração Nacional, López Obrador obteve vitórias contíguas e sem precedentes na eleição de governadores, conquistando seis dos nove cargos sufragados.
Até a administração da capital mexicana, um colosso urbano de 20 milhões de habitantes, fica agora confiada a uma correligionária de AMLO, a cientista Claudia Sheinbaum. Aos 56 anos, é a primeira mulher a ser eleita para esta posição.
No Parlamento, os números são igualmente expressivos. O Morena tem assegurada uma maioria de 250 assentos.
Desafio I: Donald J. Trump
É espinhoso o caminho que Obrador herda de Peña Nieto. E são três os principais desafios colocados ao novo Presidente: a degradação das relações com os Estados Unidos, potenciada pelo advento da Administração de Donald Trump, a violência galopante, com o narcotráfico como fonte primordial, e a corrupção crónica e institucionalizada.
Apesar da acrimónia que perdura desde a campanha presidencial dos Estados Unidos, quando começou a ser agitada a promessa do muro na fronteira meridional, o Presidente norte-americano manteve-se, na noite de domingo, confinado aos limites da diplomacia. Trump cumprimentou Obrador pela vitória e declarou-se “pronto a trabalhar” com o homólogo mexicano.
“Há muito a fazer a bem dos Estados Unidos e do México”, tweetou mesmo o 45.º Presidente.
Todavia, não há linguagem polida que disfarce o mal-estar entre os países vizinhos.
No capítulo comercial, o México está atualmente a renegociar com Washington e Ottawa o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, ou NAFTA. Para a segunda maior economia da América latina, que endereça 80 por cento das exportações aos vizinhos do norte, o desfecho deste processo, que deverá prolongar-se até 2019, é crucial. E até a voz de esquerda de Obrador o reconhece, ao clamar por uma “relação de amizade e cooperação” com os Estados Unidos.
Outro ponto escaldante das relações bilaterais é o contínuo fluxo migratório da América Central para o Norte, que enfrenta agora uma política de “tolerância zero” imposta pela Casa Branca de Trump, materializada em medidas como a separação de crianças dos pais na fronteira.
Desafio II: violência
No ano passado houve registo de 25.324 homicídios em território mexicano, um número sem par na história recente. A própria campanha eleitoral ficou manchada pela violência. Foram assassinados mais de 150 políticos, entre os quais 48 candidatos ou pré-candidatos.
Este processo eleitoral foi mesmo considerado “o mais sangrento” de sempre. No domingo, dia da chamada às urnas, foram abatidos dois militantes: um do Partido dos Trabalhadores no Estado ocidental de Michoacán e outro do Partido Revolucionário Institucional no Estado central de Puebla.
O Presidente eleito promete pugnar pela erradicação da pobreza, tida como principal berço da violência criminal, e devolver o México à paz social. Uma tarefa ciclópica, tendo em conta a força dos grupos armados do narcotráfico.
Desafio III: corrupção
O combate à corrupção, fenómeno enraizado na sociedade mexicana, foi a bandeira da campanha de Obrador. É um polvo cujos tentáculos se estendem das forças de segurança até aos círculos do poder, como atestam os numerosos escândalos que envolveram o Governo de Peña Nieto.
Ouvido pela France Presse, Arturo Sánchez, académico do Instituto Tecnológico de Monterrey, sublinhou que há atualmente “uma perceção muito mais aguda da corrupção” entre os mexicanos.
“O tema da corrupção cristalizou a cólera e a exasperação da sociedade”, continuou Sánchez, para quem o eleitorado de Obrador deverá conservar, neste domínio, uma pressão permanente sobre o novo Executivo.
Andrés Manuel López Obrador vai tomar posse em dezembro deste ano.
No discurso de vitória, o veterano da esquerda mexicana disse-se “muito consciente” da sua “responsabilidade histórica”. E expressou o desejo de “ficar na História como um bom Presidente”. Pela frente, na Praça da Constituição, ou el Zócalo, na Cidade do México, tinha largos milhares de apoiantes.
Obrador prometeu também “mudanças profundas” aos mexicanos, “sem ditadura”, num eco do que havia já afirmado ao votar na manhã de domingo, quando não resistira a comprometer-se com a expulsão da “máfia do poder” - uma farpa ao Presidente cessante, o cada vez mais impopular Enrique Peña Nieto.
Antena 1
Ao leme do Morena, o Movimento de Regeneração Nacional, López Obrador obteve vitórias contíguas e sem precedentes na eleição de governadores, conquistando seis dos nove cargos sufragados.
Até a administração da capital mexicana, um colosso urbano de 20 milhões de habitantes, fica agora confiada a uma correligionária de AMLO, a cientista Claudia Sheinbaum. Aos 56 anos, é a primeira mulher a ser eleita para esta posição.
No Parlamento, os números são igualmente expressivos. O Morena tem assegurada uma maioria de 250 assentos.
Desafio I: Donald J. Trump
É espinhoso o caminho que Obrador herda de Peña Nieto. E são três os principais desafios colocados ao novo Presidente: a degradação das relações com os Estados Unidos, potenciada pelo advento da Administração de Donald Trump, a violência galopante, com o narcotráfico como fonte primordial, e a corrupção crónica e institucionalizada.
Apesar da acrimónia que perdura desde a campanha presidencial dos Estados Unidos, quando começou a ser agitada a promessa do muro na fronteira meridional, o Presidente norte-americano manteve-se, na noite de domingo, confinado aos limites da diplomacia. Trump cumprimentou Obrador pela vitória e declarou-se “pronto a trabalhar” com o homólogo mexicano.
“Há muito a fazer a bem dos Estados Unidos e do México”, tweetou mesmo o 45.º Presidente.
Congratulations to Andres Manuel Lopez Obrador on becoming the next President of Mexico. I look very much forward to working with him. There is much to be done that will benefit both the United States and Mexico!
— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) 2 de julho de 2018
Todavia, não há linguagem polida que disfarce o mal-estar entre os países vizinhos.
No capítulo comercial, o México está atualmente a renegociar com Washington e Ottawa o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, ou NAFTA. Para a segunda maior economia da América latina, que endereça 80 por cento das exportações aos vizinhos do norte, o desfecho deste processo, que deverá prolongar-se até 2019, é crucial. E até a voz de esquerda de Obrador o reconhece, ao clamar por uma “relação de amizade e cooperação” com os Estados Unidos.
Outro ponto escaldante das relações bilaterais é o contínuo fluxo migratório da América Central para o Norte, que enfrenta agora uma política de “tolerância zero” imposta pela Casa Branca de Trump, materializada em medidas como a separação de crianças dos pais na fronteira.
Desafio II: violência
No ano passado houve registo de 25.324 homicídios em território mexicano, um número sem par na história recente. A própria campanha eleitoral ficou manchada pela violência. Foram assassinados mais de 150 políticos, entre os quais 48 candidatos ou pré-candidatos.
Este processo eleitoral foi mesmo considerado “o mais sangrento” de sempre. No domingo, dia da chamada às urnas, foram abatidos dois militantes: um do Partido dos Trabalhadores no Estado ocidental de Michoacán e outro do Partido Revolucionário Institucional no Estado central de Puebla.
O Presidente eleito promete pugnar pela erradicação da pobreza, tida como principal berço da violência criminal, e devolver o México à paz social. Uma tarefa ciclópica, tendo em conta a força dos grupos armados do narcotráfico.
Desafio III: corrupção
O combate à corrupção, fenómeno enraizado na sociedade mexicana, foi a bandeira da campanha de Obrador. É um polvo cujos tentáculos se estendem das forças de segurança até aos círculos do poder, como atestam os numerosos escândalos que envolveram o Governo de Peña Nieto.
Ouvido pela France Presse, Arturo Sánchez, académico do Instituto Tecnológico de Monterrey, sublinhou que há atualmente “uma perceção muito mais aguda da corrupção” entre os mexicanos.
“O tema da corrupção cristalizou a cólera e a exasperação da sociedade”, continuou Sánchez, para quem o eleitorado de Obrador deverá conservar, neste domínio, uma pressão permanente sobre o novo Executivo.
Andrés Manuel López Obrador vai tomar posse em dezembro deste ano.