"Michel" sobrevive ao "inferno" do 27 de Maio

"Michel" passou três anos detido no Moxico, Angola, acusado de ter participado na alegada tentativa de golpe de Estado de 27 de Maio de 1977. Assistiu a fuzilamentos e até enterrou colegas a troco de uma mísera refeição.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Passados 30 anos, este advogado e professor universitário angolano resolveu fazer a "catarse" e contar ao mundo as condições desumanas a que foi submetido, na esperança de que "Nuvem Negra - O drama do 27 de Maio de 1977" possa servir de contributo para a História de Angola.

No dia do lançamento do seu livro em Portugal, na Casa de Angola, Miguel Francisco "Michel" contou à Lusa o pesadelo que viveu por ter sido acusado de colaborar com os "fraccionistas" Nito Alves e José Van-Dúnem, que defendiam que o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) devia continuar na linha ideológica do marxismo-leninismo.

Michel era militar na altura e, apesar de saber da onda de detenções e repressão que se seguiu ao 27 de Maio, apresentou-se na sua unidade como se nada tivesse acontecido.

Dos antigos colegas, só restava um, os outros eram cubanos.

Foi preso e levado para um quartel, mas o verdadeiro pesadelo havia de começar a 26 de Agosto desse ano, quando foi levado "para o inferno", um "campo de detenção", que Michel prefere chamar de "concentração", mas pior, "porque nem sequer havia casernas para todos".

Integrou um grupo de 600 homens, que se juntaram à centena que já se encontrava no campo da Calunda. Depois de vários dias de viagem, primeiro de comboio e depois de camião.

Logo à chegada ficaram a perceber o que os esperava. Foram recebidos com "um enxerto de porrada".

Michel lembra o choque que teve ao ver amigos de Luanda, que já se encontravam no campo, com um aspecto cadavérico, "com o cabelo a cair e cheios de piolhos", prova das condições desumanas do campo.

A única boa notícia foi comprovar que a informação de que os amigos tinham sido mortos estava errada.

"Fardados" com batinas alguns, e com calção e camisola outros, passaram a primeira de muitas noites sob uma forte chuvada e ao frio.

"Muitos morreram asfixiados porque as casernas eram poucas e todos se queriam abrigar da chuva", contou.

Além do frio, a fome. O desespero e o instinto de sobrevivência era tal que "muitos esperavam a morte dos colegas para serem eles a enterrá-los e assim receberem o "prémio" instituído pelo chefe do campo - uma mísera refeição".

Michel enterrou dois e recebeu o prémio.

A situação de fome levou muitos a aventurarem-se e a fugirem só para tentarem roubar mandioca fora do campo.

Os dois primeiros a ser apanhados "foram amarrados pelo pénis a uma árvore e chicoteados".

"Ainda hoje ecoam os seus berros na minha cabeça", disse.

Mas o dia que certamente jamais esquecerá é o 04 de Setembro de 1977.

"Os responsáveis do campo organizaram uma sessão ou ritual e escolheram dois jovens para serem fuzilados, um deles com apenas 18 anos e obrigaram-nos a assistir".

"Foi a inauguração dos fuzilamentos", refere Michel, sem conseguir esconder a emoção e perturbação que estas recordações ainda lhe causam.

Ele próprio recebeu uma "sentença de morte" por parte de Elias, "um dos mais tenebrosos guardas do campo", que ameaçou matá-lo porque queria os seus óculos.

Michel contou que o tempo que passou no campo foi a jogar ao gato e ao rato e conseguiu evitar voltar a encontrar-se com aquele que seria o seu carrasco.

Com o crescente número de mortes, fosse por fuzilamento, tortura ou fome, e de fugas, "começou a haver menos gente no campo e o problema do alojamento deixou de existir". Mas a fome continuava.

A dada altura, Lúcio Lara, secretário administrativo do MPLA, acusado pelos "fraccionistas" de ser responsável pela onda de repressão que se seguiu ao 27 de Maio, terá sido avisado, durante uma visita à região, das condições desumanas em que os presos viviam.

Michel não sabe dizer se foi coincidência, mas a 16 de Outubro chegaram ao campo os mesmos camiões que lá os tinham deixado e os mais antigos e os doentes foram autorizados a partir "para recuperação".

"Fomos para Luau e eramos como uma atracção", referiu.

"Já nem eramos humanos, tal era nosso estado esquelético e fedorento", disse.

Em Abril de 1978 houve novos inquéritos "para apurar os verdadeiros implicados na tentativa de golpe de Estado".

Michel foi condenado, sem julgamento, a três anos de cadeia por "participação ideológica".

Voltou ao campo da Calunda. Apesar do desespero inicial, acabou por ter uma surpresa.

"Já não era o campo da morte e as torturas foram `suavizadas`", lembrou.

Cumpriu os três anos e foi libertado a 05 de Julho de 1980, já depois da morte do Presidente Agostinho Neto, que no dia seguinte ao 27 de Maio garantiu que, com os "fraccionistas", não se perderia tempo com julgamentos.

Michel diz acreditar que as libertações de todos os detidos foram graças à subida ao poder do actual Presidente, José Eduardo dos Santos, após a morte de Agostinho Neto.

Por isso, fez questão de mandar uma cópia do seu livro a Eduardo dos Santos.

"A minha catarse está concluída. Vi muitos amigos morrerem. Vivi 30 anos com este pesadelo, sempre perturbado, mas agora posso dizer que morro com parte da minha consciência tranquila".

O livro, disse, é "um retrato fiel" do que viveu e mais do preocupar-se com o estilo literário, porque não é escritor, quer que este testemunho seja "um contributo para a História de Angola".

O autor manifestou a esperança de que um dia os responsáveis tenham a coragem de admitir que "cometeram erros gravíssimos", não numa perspectiva jurídica, "mas para se honrar os que morreram inocentemente".

Michel diz que teve "a coragem de romper com as grilhetas do silêncio e do medo".

"Para que nunca mais se repitam nuvens negras em Angola".

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