`Michiganders` afluem às urnas em eleição que poderá mandar primeiro muçulmano para o Senado
Detroit amanheceu soalheira e os cidadãos acorrem às assembleias de voto para as intercalares em que o estado do Michigan poderá eleger o primeiro senador muçulmano, assim esperam eleitores ouvidos pela Lusa em vários pontos.
Na escola intermédia de Salina, em Dearborn, às portas da cidade industrial junto da fronteira canadiana, a delegada eleitoral Amy Jones anda num virote. São precisas mesas para os voluntários, é preciso que todos conheçam as regras e há eleitores que pedem orientação sobre o extenso boletim de voto, onde se escolhem representantes para ambas as câmaras do Congresso e para outros responsáveis políticos estaduais e locais.
Pelas 08:00 locais (13:00 hora de Lisboa), tinham votado cerca de 50 pessoas nas duas secções de voto.
Uma jovem de 20 anos, que preferiu não se identificar, disse à Lusa que espera que "os candidatos cumpram as promessas que levaram as pessoas a votar neles".
"Nasci e cresci aqui e somos muito unidos e envolvidos na política. Quando é preciso, congregamo-nos e esperamos que o nosso voto sirva para fazer a diferença", disse.
Dentro do ginásio da escola, há cerca de 20 mesas individuais de voto, com um pequeno cubículo onde toda a gente preenche o boletim, uma longa folha de papel com os candidatos e propostas a votos, e círculos que é preciso preencher. Depois de votar, passam-no por um `scanner` que regista as suas escolhas.
Toca uma campainha que sobressalta toda a gente, mas Amy Jones esclarece: "Estamos numa escola, é normal!".
Numa comunidade predominantemente muçulmana de origem iemenita, as instruções estão em inglês e árabe. Tudo é regulado, incluindo a distância a que os voluntários que continuam a fazer campanha podem estar da entrada, cerca de 30 metros.
Khaled Abdullah segura um placard em que pede que os eleitores apoiem uma proposta que também vai a votos para dotar as escolas locais de 1,5 mil milhões de dólares para melhoramentos.
"É a nossa lista de desejos: substituir três escolas completamente, casas de banho, ar condicionado...está lá alguma coisa para todas as escolas", afirmou.
Para esta comunidade, previu que a escolha principal deverá ser o candidato democrata ao Senado, Abdul El-Sayed, que poderá ser o primeiro eleito muçulmano na câmara alta do Congresso: "Espero que haja uma participação recorde desta vez, e isso dever-se-á a El-Sayed, porque as pessoas estão mesmo motivadas por ele, vai ser o principal fator que as leva a votar".
O imã da mesquita de Dix, perto da escola de Salina, Mohammed El-Hadad, veio votar com a mulher. Por se tratar de uma comunidade muçulmana, todas vestem uma variante do traje islâmico, que lhes cobre o cabelo ou a maior parte do rosto.
Com a ajuda de um intérprete improvisado, porque mal fala inglês, disse à Lusa esperar pessoalmente que Abdul El-Sayed ganhe ao republicano Mike Rogers, mas salientou que "é preciso que ganhe o melhor, seja quem for".
Assinalou que a afluência às urnas devia ser maior, mas espera que vá aumentando durante o dia. Amy Jones disse à Lusa que nesta assembleia de voto, houve números recorde de voto antecipado.
Juned, um imigrante do Bangladesh, trabalha primeiro e vota depois, mais à tarde. Disse à Lusa que guiar um Uber praticamente não lhe chega para ganhar a vida, porque "eles ficam com 60%" do que ganha.
"Trabalho 13 horas por dia e pagamos 70 dólares para encher o depósito. Como é que tenho dinheiro para viver?! Há dias em que nem vejo os meus filhos", lamentou, argumentando que tudo se deve à "guerra desnecessária" do Presidente, Donald Trump, contra o Irão, que os Estados Unidos "nunca vão conseguir ganhar" por causa do controlo iraniano sobre o estreito de Ormuz, por onde passa parte significativa do petróleo do Médio Oriente.
À porta do liceu Cass Tech, no centro de Detroit, a guerra de Bradley Cunningham é levar o maior número de pessoas a votar que não conseguem chegar às assembleias por meios próprios.
O seu táxi é hoje um vaivém de votantes idosos ou com dificuldades de mobilidade.
"Faço o mesmo em todas as eleições há dez anos. Este ano, associei-me à Warriors on Wheels [uma associação local que ajuda cidadãos com deficiências] e sempre que sabem de alguém que não consegue ir votar, chamam-me. E eu ando com um megafone e digo `mandem-me parar e eu levo-vos a votar", disse.
"Digo às pessoas para rezarem e votarem. Quem precisar, em meia-hora tem alguém que os leva a votar", contou.
É o caso de Deborah, uma idosa afro-americana que os delegados estão a ajudar a votar sem sair do carro de Bradley.
"Espero que haja uma grande afluência. E espero que os democratas voltem a ganhar o Senado. Eu gosto de Abdul, ouvi-o quando veio falar à minha igreja. E escolhi-o a ele", contou.
No ginásio do Cass Tech, um percalço agita os delegados eleitorais. Alguém causou "uma perturbação", disseram à Lusa.
À saída, um casal de votantes republicanos contou à Lusa que se opôs ao processo de votação porque a folha que é suposto cobrir o boletim de voto para que não se vejam as cruzes era demasiado curta.
"Disseram-nos que se não quiséssemos, não votássemos, o que é inacreditável. É sempre a mesma coisa. Já nos queixámos em anos anteriores, mas nunca fazem nada. Qualquer pessoa pode ver em quem votámos. De certeza que vai haver fraude", afirmaram, sem se quererem identificar.