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Militares das Honduras impedem regresso de Presidente deposto

Militares das Honduras impedem regresso de Presidente deposto

Uma coluna militar frustrou ontem, no aeroporto de Tegucigalpa, a aterragem do avião que transportava Manuel Zelaya, o Presidente derrubado a 28 de Junho pelas Forças Armadas das Honduras. Militares e efectivos da polícia carregaram sobre apoiantes do Chefe de Estado que tentavam acercar-se do aeroporto, causando pelo menos duas mortes.

RTP /
A polícia e os militares impediram milhares de apoiantes de Manuel Zelaya de entrar no aeroporto de Tegucigalpa Gustavo Amador, EPA

Forçado a abandonar o espaço aéreo do seu país, Manuel Zelaya disse compreender as razões que levaram os pilotos de um avião emprestado pelo Presidente venezuelano Hugo Chávez a abortarem a manobra de aterragem. Uma decisão, argumentou o Chefe de Estado deposto, que culminou as repetidas ameaças das autoridades interinas das Honduras contra quaisquer tentativas de regresso. Momentos antes de rumar à Nicarágua, Zelaya desabafou: "Se eu tivesse um pára-quedas, teria saltado imediatamente deste avião".

Dos corredores do poder em Tegucigalpa, agora ocupados pelo Governo interino de Roberto Micheletti, saem novas declarações de desafio a uma comunidade internacional enfileirada em torno do Presidente derrubado. No momento em que o avião de Zelaya invertia a rota, Micheletti proclamava os membros do seu executivo como "os autênticos representantes do povo", fazia a denúncia de supostos planos para uma intervenção militar externa no seu país e dizia-se preparado para dialogar com a comunidade internacional - desde que o regresso de Manuel Zelaya às Honduras fique arredado de todas as ordens de trabalhos.

A surpresa causada pelo golpe de Estado hondurenho só encontra paralelo no apoio quase unânime que o Presidente deposto encontra por estes dias entre os principais agentes das relações internacionais. Um cerrar de fileiras inaugurado pelas Nações Unidas, que se apressaram a condenar o afastamento de Manuel Zelaya, cimentado por figuras institucionais tão assimétricas como os presidentes dos Estados Unidos, Venezuela e Colômbia e consagrado por uma decisão adoptada durante o fim-de-semana pela Organização dos Estados Americanos (OEA): a suspensão das Honduras, algo que não acontecia desde 1962, quando o regime cubano foi alvo da mesma sanção.

Apoiantes de Manuel Zelaya pedem "capacetes azuis"

Vedadas as portas de Tegucigalpa, o Chefe de Estado no exílio entregou-se a um périplo regional carregado de simbolismo. Após um encontro com o Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, Manuel Zelaya deslocou-se a El Salvador para uma sequência de contactos com os homólogos da Argentina, Equador e Paraguai e com o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza. Este último promete agora procurar "todas as aberturas diplomáticas apropriadas" para atingir o objectivo de devolver Zelaya à Presidência das Honduras.

Durante um voo para Genebra, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, voltou a classificar o golpe hondurenho de "inaceitável" e instou o Governo interino do país a proteger as populações civis e a acautelar a liberdade de expressão. Quase em simultâneo, o Governo de Roberto Micheletti decretava o recolher obrigatório. Nas ruas de Tegucigalpa pontifica um apertado aparato militar e policial.

Quando se tornou evidente que o avião de Manuel Zelaya não aterraria em território hondurenho, os apoiantes concentrados nas imediações do aeroporto internacional de Toncontín começaram a pedir em uníssono o envio de uma força internacional de interposição: "Queremos capacetes azuis".

"Isto é uma guerra. Imagine-se. As coisas estão tão más que o Presidente está no ar e eles não o deixam aterrar", lamentava em Tegucigalpa Matias Sauceda, um activista dos Direitos Humanos citado pelas agências internacionais.

Golpe de Estado

As autoridades interinas das Honduras acusam Manuel Zelaya de um total de 18 crimes, incluindo traição e um alegado bloqueio a oito dezenas de diplomas aprovados pelo Congresso desde 2006, o ano em que tomou posse na Presidência. O golpe de Estado teve lugar depois de Zelaya ter ignorado uma decisão do Supremo Tribunal contra a realização de um referendo sobre a eventual introdução de emendas à Constituição.

Os críticos do Presidente hondurenho - parte dos quais correligionários no Partido Liberal, incluindo o governante interino Roberto Micheletti - acusam-no de pretender eternizar-se no cargo, mercê de um processo de revisão constitucional semelhante àquele que cimentou a Presidência de Hugo Chávez na Venezuela.

Manuel Zelaya negou sempre as acusações. Contudo, a 28 de Junho, o dia em que os eleitores hondurenhos deveriam ser chamados a pronunciar-se em consulta popular, uma unidade de soldados encapuzados irrompeu pelo Palácio Presidencial e, de armas em riste, obrigou o Presidente a deixar o país.

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