Milosevic autopsiado hoje , irmão quer funeral em Belgrado
Médicos do Instituto de Medicina Legal holandês realizam hoje a autópsia ao cadáver do ex-presidente jugoslavo Slobodan Milosevic na presença de dois patologistas sérvios, informou um porta-voz do Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex- Jugoslávia.
Milosevic, encontrado morto no sábado de manhã na cela que ocupava nas dependências do TPI em Scheveningen (Haia), foi transferido na última noite para o instituto, nos arredores de Haia, segundo o porta-voz Christian Chartier.
Chartier disse que é "muito provável" que na autópsia esteja também presente um patologista russo, em resposta a um pedido do advogado da família de Milosevic, Zdenko Tomasic.
"O TPI não tem nenhuma razão para temer os resultados da autópsia, que inclui um exame toxicológico", indicou Chartier, em resposta às suspeitas expressas pelos familiares de Milosevic de que este foi envenenado na prisão do tribunal da ONU.
Milosevic, que estava há cinco anos detido em Haia - onde desde Fevereiro de 2002 era julgado por crimes de guerra e genocídio nos conflitos na Croácia, Bósnia e Kosovo -, sofria de hipertensão crónica e problemas cardíacos que obrigaram à suspensão do julgamento em cerca de vinte ocasiões.
A viúva, Mirjana Markovic, e o seu irmão, Borislav, residentes em Moscovo, responsabilizaram o TPI pela morte, por ter rejeitado em finais de Fevereiro o pedido do ex-presidente jugoslavo para ser transferido para um centro médico moscovita.
O TPI declinou toda a responsabilidade e afirmou que o ex- presidente recebeu todos os cuidados necessários na Holanda.
O advogado da família pediu sábado a presença de patologistas russos na autópsia, após o TPI ter rejeitado a realização desta em Moscovo.
Tomasic disse que viu o ex-líder jugoslavo pela última vez na sexta-feira e que este lhe comunicou temer ser envenenado na prisão.
O TPI requisitou uma autópsia e um exame toxicológico completo para determinar a causa da morte.
O irmão de Slobodan Milosevic disse hoje desejar que o antigo presidente jugoslavo seja sepultado em Belgrado, mas precisou que nenhuma decisão tinha sido tomada.
"A decisão não foi tomada. A família, a mulher e os filhos, tomarão a decisão", indicou à AFP Borislav Milosevic, antigo embaixador da Jugoslávia em Moscovo, sublinhando que, pessoalmente, desejava que Slobodan Milosevic fosse sepultado em Belgrado, como "um filho do povo sérvio".
A Procuradora-Geral do TPI para a ex-Jugoslávia, Carla Del Ponte, afirmou sábado que a morte de Milosevic, poucas semanas antes da conclusão do seu julgamento, "impedirá que se faça Justiça neste caso", mas insistiu que o Tribunal prosseguirá os seus esforços para deter outros seis acusados de crimes de guerra na antiga Jugoslávia, que continuam a monte.
"A comunidade internacional e o Tribunal têm a responsabilidade de assegurar às vítimas que todos estes acusados serão conduzidos à Justiça e julgados em Haia, especialmente Radovan Karadzic e Ratko Mladic", respectivamente ex-líderes civil e militar sérvio-bósnios, declarou num comunicado oficial.
Karadzic e Mladic são considerados os principais responsáveis do ataque a Sarajevo durante a guerra da Bósnia (1992-1995) e do massacre de 8.000 muçulmanos no enclave de Srebrenica, em Julho de 1995.
Milosevic, que dirigiu a Jugoslávia e a Sérvia com mão do ferro entre 1989 e 2000, atiçou o nacionalismo sérvio com as suas ideias "de uma Grande Sérvia", causando quatro guerras que puseram fim à Federação Jugoslava e causaram 250.000 mortos e milhões de refugiados.