Ministro israelita da Cultura exige investigação para identificar fontes acusadas de matar em documentário sobre Gaza

Ministro israelita da Cultura exige investigação para identificar fontes acusadas de matar em documentário sobre Gaza

Zohar já formalizou pedido de revogação da cidadania dos autores do documentário "Naza", premiado no Festival de Veneza. "Despareçam, tenho a certeza de que os vossos amigos do Hamas em Gaza, vos receberão de braços abertos”, disse.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, no Festival de Veneza, em Itália EPA

O ministro da Cultura de Israel exige um inquérito para identificar as fontes israelitas que acusam o exército de matar civis em Gaza no documentário “NAZA”, premiado na semana passada no Festival de Cinema de Veneza.

No domingo à noite, Miki Zohar já tinha sugerido que fosse retirada a nacionalidade israelita aos realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, cujo documentário venceu o prémio especial em Veneza, acusando-os de “traição contra o Estado”.

O ministro voltou a acusar os realizadores de “falta de lealdade para com o Estado e de colaboração com o inimigo”, numa nota divulgada na rede social X.

Anunciou também nas redes sociais que contactou o Ministério do Interior para estudar o pedido de privação da nacionalidade de Abraham e Szor.

“Pedi também que se investigue a forma como os elementos foram obtidos, quem está por trás e que se verifique se as atividades que levaram à sua recolha e publicação podem ter ajudado o inimigo em tempo de guerra”, acrescentou.

Também o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, da extrema-direita, se insurgiu contra o documentário e considerou que Abraham e Szor “são uma vergonha e uma desgraça para todo o povo de Israel”.

“Desapareçam. Tenho a certeza de que os vossos amigos, os nossos inimigos no Hamas em Gaza, vos receberão de braços abertos”, escreveu nas redes sociais.

Estas acusações graves ilustram a veemência com que as autoridades israelitas rejeitam qualquer crítica à forma como conduzem a guerra contra o Hamas em Gaza.

A ofensiva em Gaza seguiu-se aos piores massacres de sempre em Israel pelo movimento extremista palestiniano em 07 de outubro de 2023, em que morreram cerca de 1.200 pessoas e 250 foram feitas reféns.

A retaliação israelita causou mais de 73.000 mortos em Gaza, de acordo com as autoridades locais controladas pelo Hamas, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e centenas de milhares de deslocados.

A ofensiva militar em Gaza motivou acusações de genocídio a Israel, que mantêm altas restrições à entrada de jornalistas e observadores independentes na Faixa de Gaza.

A perda de nacionalidade é legalmente possível em Israel, embora seja raramente aplicada.

O pedido deve partir do Ministério do Interior e ser aprovado por juízes.

O documentário “NAZA” baseia-se nos testemunhos anónimos de 24 membros do exército e dos serviços secretos israelitas.

“NAZA” expõe a forma como, de acordo com os depoimentos, as forças israelitas matam numerosos civis na tentativa de eliminar membros do Hamas.

No documentário de 80 minutos, os entrevistados descrevem como vários sistemas tecnológicos, recorrendo em particular à Inteligência Artificial (IA), permitem ao exército localizar, através dos telemóveis, alegados membros do Hamas e as suas famílias.

Depois de localizados, são atingidos indistintamente em casa, denunciam.

“NAZA” é um acrónimo utilizado no seio do exército israelita para designar os “danos colaterais” previstos em cada ataque, de acordo com o documentário.

Uma das pessoas entrevistadas no filme disse que um dos bombardeamentos contra um único alvo matou 500 pessoas que se encontravam nas proximidades.

As forças israelitas “nunca planearam, aprovaram ou executaram um ataque em Gaza no qual estivesse previsto que 500 pessoas, ou qualquer outra ordem de grandeza semelhante, morressem”, reagiu hoje o exército.

“Não há qualquer prova que sustente essa afirmação”, acrescentou o exército, que já tinha negado recorrer à IA para identificar alvos.

Abraham e Szor integraram a equipa de “No Other Land”, com os palestinianos Hamdan Ballal e Basel Adra, sobre o plano israelita de destruição de uma aldeia palestiniana na Cisjordânia que ganhou o Óscar de Melhor Documentário em 2025.

“É realmente muito importante para nós que os israelitas vejam este filme”, disse Abraham no sábado, quando foi anunciado o prémio especial para “NAZA” em Veneza.
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