Moçambique enfrenta um teste para escapar ao destino de Angola - Tom Burgis
Londres, 17 jun (Lusa) - Moçambique é um país que vai servir de teste à tese da "maldição dos recursos", podendo acabar como Angola, onde apenas uma pequena elite beneficia da riqueza natural, ou conseguir distribuir a riqueza, melhorando a vida da população.
"Moçambique, tal como o Uganda, Quénia, e Tanzânia, é uma espécie de teste, para saber se conseguem ou não fugir do destino de Angola, onde uma pequena elite concentra a maior parte da riqueza proveniente dos recursos naturais", diz, em entrevista à Lusa em Londres, o autor do livro "A Pilhagem de África".
Tom Burgis, ao longo das 341 páginas do livro, passa em revista as principais ligações entre os dirigentes de vários países africanos para abordar o tema da "maldição dos recursos", uma tese que diz que os países são amaldiçoados por terem muitos recursos naturais, dado que estes são apropriados por uma pequena parte dos dirigentes, e não chegam a beneficiar a maioria da população.
O livro, explica o jornalista de investigação do Financial Times, "começa com a ideia de que há uma maldição dos recursos, e mostra que os sítios mais ricos em recursos naturais caíram sempre em golpes de estado, guerras, violência interna, corrupção, opressão, e o padrão está mais exacerbado em África".
O continente africano, acrescenta, é normalmente olhado como mais pobre, mas é o mais rico, tem um terço de todos os recursos naturais, "mas os padrões de vida são terrivelmente baixos", tentando mostrar que "a maldição dos recursos` não é um acidente, nem um conceito abstrato, é um sistema concreto de pilhagem que liga políticos locais, autoridades de segurança, intermediários, empresas petrolíferas e os consumidores dos materiais recolhidos em África".
Como? A explicação é simples: "O livro explora as ligações entre o poder político, que está concentrado em poucas pessoas, e mostra que os Estados de recursos [naturais] não precisam de taxar as pessoas, portanto não precisa de pedir apoio, de governar para as pessoas, só precisa de manter o fluxo de dinheiro a vir", diz Tom Burgis.
O livro, escrito como se fosse uma longa reportagem, apresenta um conjunto de indicadores para sustentar que a riqueza africana não está a ir para os africanos, mas sim para uma pequena elite composta pelos privilegiados locais e pelos investidores e pelas grandes empresas internacionais, "que apresentam-se como tendo grandes regras internas contra a corrupção, grande controlo, mas depois chegam a África e dizem que há estes `africanos malucos e corruptos` a tentarem tirar-lhes dinheiro do seu bolso".
Sobre Moçambique, Tom Burgis diz ter descoberto um pagamento da Queensway, em 2009, ao embaixador de Moçambique na China, a título de "empréstimo para projeto", e acrescenta que nesse mesmo ano uma empresa desse grupo de investimentos baseado em Hong Kong "recebeu os direitos mineiros quando estavam a construir uma fábrica de cimento em Moçambique".
A história, já contada pelo FT, não foi confirmada nem pela empresa nem pelo embaixador, já que ambos se escusaram a comentar o pagamento, mas para Tom Burgis, "este é um exemplo da maneira de atuar, de como as opressivas cliques dirigentes em países com grandes recursos naturais conseguem canalizar as receitas para a sua base de apoio, para o seu Estado sombra".