Mundo
Moçambique. "Estado Islâmico" consolida posições na guerra civil
Mocímboa da Praia irá provavelmente ser retomada pelas forças moçambicanas leais ao Governo de Maputo. Mas o mais significativo não é tanto essa provável retomada e sim o facto de um porto dessa decisiva importância estratégica já neste ano ter caído por três vezes nas mãos do "Estado Islâmico".
A cidade portuária, com 30.000 habitantes, no norte da província de Cabo Delgado, próxima da fronteira com a Tanzânia, tem uma importância nevrálgica para as exportações de gás natural. A instabilidade que aí se tem vivido neste ano não é, por isso, um facto de relevância apenas militar, mas em larga medida económica. A cidade foi tomada pelas forças do Daesh, primeiro em março deste ano, depois em junho e agora em 10 de agosto, após uma batalha de cinco dias.
Eric Morier-Genoud, historiador de Belfast citado pela Associated Press, considera que "a queda de Mocímboa da Praia é uma vitória de primeira grandeza para os insurrectos, e também uma vitória pessoal. Muitos dos líderes insurrectos provêm desta cidade e estão a regressar nas condições escolhidas por eles. Eles demoraram cinco dias para tomar a cidade e o porto, mostrando determinação, organização e bom planeamento".
Segundo Morier-Genoud, é provável que o Exército moçambicano retome Mocímboa da Praia, mas "a questão é quando e como. E, quando o fizer, a questão também será como o Exército vai conservar o controlo da cidade. A actual organização e logística do Exército claramente falhou em garantir o controlo da cidade nesta segunda vez".
Um outro especialista militar citado pela AP, o coronel sul-africano Johann Smith, classifica a ofensiva vitoriosa sobre a cidade como "altamente sofisticada", tendo começado pela flagelação das posições governamentais à volta da cidade, para fazer evacuar dos subúrbios a maioria da população civil aí residente.
Seguiu-se, de 5 a 10 de agosto, a batalha propriamente dita pelo controlo da cidade. O Exército moçambicano tentou reforçar a guarnição da cidade para resistir à ofensiva rebelde, mas fê-lo desastradamente, com o envio de um contingente da cidade de Mueda, de tropas inexperientes, que caíram numa emboscada e logo sofreram 50 mortos.
Houve também da parte do Governo de Maputo a tentativa de apoiar a guarnição de Mocímboa com uma força helitransportada de mercenários sul-africanos da empresa Dyck Advisory Group, que foi em grande parte ineficaz.
Segundo foi admitido pelo ministro da Defesa, Jaime Neto, os rebeldes do Daesh, após tomarem o porto em 11 de agosto, deram-se ainda ao luxo de abrir fogo contra navios moçambicanos que tentavam trazer por mar os reforços que não tinham conseguido trazer por terra.