Moçambique preocupado com atuação de redes internacionais de narcotráfico no país

Moçambique preocupado com atuação de redes internacionais de narcotráfico no país

As autoridades moçambicanas denunciaram hoje a presença no país de redes internacionais de tráfico de droga, nomeadamente, dois cartéis mexicanos, uma organização criminosa brasileira e outra paquistanesa, manifestando preocupação com uso de corrupção para penetrarem nas instituições do Estado.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"Temos efetivamente três grupos criminosos que se dedicam ao narcotráfico ou se esforçam para realizar as suas operações em Moçambique", afirmou o diretor-geral do Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic), Ilídio Miguel, na Conferência Nacional sobre Prevenção e Combate à Droga, que reúne especialistas de Moçambique, Brasil e Portugal, em Maputo.

O responsável participava num painel sobre "Novas Tendências do Tráfico de Drogas: Desafios de Investigação", integrado na conferência organizada pelo Ministério Público sob o lema "Prevenção e Combate à Droga: Novas Tendências, seus Desafios e Respostas Inovadoras".

Segundo Ilídio Miguel, a rede paquistanesa esteve particularmente ativa na década de 1990 e voltou a ganhar expressão a partir de 2019, enquanto na rota sul operam os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração.

A outra organização identificada é o Primeiro Comando da Capital (PCC) brasileiro, que, segundo o diretor-geral do Sernic, estabeleceu ligações no país através de Gilberto Aparecido dos Santos, conhecido como "Fuminho", apontado como um dos maiores narcotraficantes do Brasil e detido em abril de 2020 em Maputo.

As autoridades moçambicanas apontam para a infiltração de membros destas redes criminosas em instituições do Estado, recorrendo à corrupção para facilitar as suas operações.

"Efetivamente, temos sinais e elementos que mostram que estão ativos, bastante ativos, e preocupa-nos bastante a capacidade de penetração nas instituições do Estado para lograrem os seus intentos", afirmou.

Segundo o responsável, desde 2022 registou-se uma redução da utilização das rotas terrestres e da zona costeira, sobretudo no norte do país, verificando-se uma crescente utilização da via aérea para o transporte de droga.

"Temos a rede brasileira bastante aprimorada, com mecanismos sofisticados de dissimulação da droga, e estes usam muito a via aérea. As drogas aparecem simuladas, neste caso, em rebuçados", explicou.

As autoridades apreenderam terça-feira, no Aeroporto Internacional de Maputo, quantidades não especificadas de droga proveniente do Brasil, tendo sido detido o alegado proprietário da carga, revelou.

Desde janeiro, acrescentou, pelo menos seis pessoas associadas ao cartel de Sinaloa foram detidas em processos relacionados com a apreensão de cinco toneladas de fentanil.

Apesar dos resultados alcançados, Ilídio Miguel reconheceu a existência de desafios ligados à investigação criminal, nomeadamente limitações do quadro legal, mecanismos de cooperação internacional, capacitação institucional e fenómenos de corrupção.

No primeiro trimestre deste ano, 17.783 pessoas procuraram atendimento nos serviços de saúde devido ao consumo de drogas e outras substâncias psicotrópicas, um aumento de 58,6% face ao período homólogo.

No mesmo período, foram registados 131 crimes relacionados com tráfico e consumo de droga, contra 75 em igual período de 2025.

Os dados oficiais apontam igualmente para um aumento dos processos-crime relacionados com estupefacientes. O Sernic registou 418 processos no primeiro semestre, contra 250 em igual período de 2025, enquanto a Procuradoria-Geral da República tramitou 651 processos, contra 418 anteriormente.

No âmbito do combate ao narcotráfico, as autoridades anunciaram ainda a apreensão de cerca de uma tonelada de canábis, além de heroína, cocaína e metanfetaminas.

O número de moçambicanos detidos na diáspora aumentou de 42 para 56, sendo o Brasil o país com mais casos registados. Em Moçambique, 812 pessoas encontravam-se detidas por crimes relacionados com drogas no final do primeiro semestre, contra 844 em igual período de 2025.

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