Moçambique. Reféns libertados após resgate pode levar a mais raptos de estrangeiros
A ACLED alertou que a libertação de três reféns sequestrados por insurgentes no norte de Moçambique após o pagamento de um resgate de 3,2 milhões de meticais (49 mil euros) pode incentivar novos raptos de estrangeiros.
De acordo com a atualização de outubro do Mozambique Conflict Monitor, da organização de monitorização de conflitos ACLED, os três reféns, um sul-africano, um zimbabueano e um moçambicano, tinham sido capturados durante o ataque de 03 de setembro a um acampamento de caça na província do Niassa, propriedade do luso-moçambicano Carlos Queiroz, sendo libertados em 04 de outubro após o pagamento do resgate.
"A libertação, no início de outubro, dos reféns capturados pelo EIM [Estado Islâmico de Moçambique] na província de Niassa no mês passado, em troca de resgate, deverá encorajar o grupo a sequestrar estrangeiros no futuro", refere-se no relatório.
Segundo a organização, esta evolução "irá preocupar as organizações humanitárias em toda a província de Cabo Delgado, as empresas mineiras ativas no distrito de Montepuez e o setor do turismo da província de Niassa".
A ACLED acrescenta que a libertação ocorreu após um impasse de mais de três semanas entre os insurgentes e as Forças Armadas de Defesa de Moçambique na zona mineira de Shamba Kubwa, em Nairoto, no norte do distrito de Montepuez, onde os sequestrados permaneceram desde o início de setembro.
Segundo o relatório, as forças governamentais não tentaram um assalto à posição dos insurgentes, provavelmente devido à presença dos reféns. A organização refere ainda que os extremistas poderão ter colocado engenhos explosivos improvisados na via de acesso à área mineira.
A permanência prolongada do grupo em Shamba Kubwa demonstra igualmente capacidade para manter linhas de abastecimento. "A presença continuada do grupo na área sugere que este dispõe de meios para reabastecer-se de armas e munições", refere-se no relatório, acrescentando que os insurgentes terão desenvolvido redes locais de apoio após vários meses de atividade naquela região.
Segundo uma fonte local citada pela organização, os insurgentes dedicaram-se ainda à extorsão na área mineira e à apreensão de equipamento utilizado na atividade florestal.
No relatório aponta-se igualmente que, ao longo de agosto e setembro, o Estado Islâmico de Moçambique "intensificou os seus ataques contra civis" nos distritos de Mocímboa da Praia, Muidumbe e Macomia, regressando também a Nangade, junto à fronteira com a Tanzânia.
"As evidências sugerem que o retorno do EIM a Nangade visa obter apoio da vizinha Tanzânia", lê-se no documento, que considera provável um reforço das medidas de segurança em ambos os lados da fronteira.
Segundo a organização, os ataques a civis continuam a servir vários objetivos simultâneos, incluindo o deslocamento forçado de comunidades, a obtenção de receitas através de sequestros e resgates e a retaliação contra populações suspeitas de colaborarem com as forças moçambicanas e ruandesas.
Em Mocímboa da Praia, a resposta das autoridades passou pelo reforço das medidas de segurança, situação que, segundo a ACLED, "tem restringido a atividade comercial e humanitária".
"Como resultado, é provável que a tensão na vila aumente. Essa tensão poderá virar-se contra o Estado, quer através de protestos, quer através de uma maior colaboração com o EIM", alerta a organização.
A ACLED acrescenta que o encerramento do aeroporto de Mocímboa da Praia e a insegurança persistente em partes da estrada N380 estão a dificultar o acesso humanitário e a atividade económica, criando condições para um agravamento do descontentamento local caso a situação se prolongue.
A província de Cabo Delgado, rica em gás natural e recursos minerais, enfrenta uma insurgência armada desde outubro de 2017, conflito que já provocou milhares de mortos, destruição de infraestruturas e mais de um milhão de deslocados.