Moçambique tornou-se "importante fonte de investimento" dos EUA e pode ser fornecedor
O Governo dos Estados Unidos da América (EUA) reconhece que Moçambique se tornou numa "importante fonte de investimento" norte-americano em África, caminhando para ser também um grande fornecedor do país.
Em entrevista exclusiva à Lusa em Maputo, à margem da visita de trabalho que está a realizar a Moçambique, a subsecretária adjunta do Gabinete para África do Departamento de Estado dos EUA, Sarah Troutman, reconheceu desde logo o impacto da retoma em curso dos projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) em Cabo Delgado, no norte.
"Solidificaram definitivamente Moçambique como uma importante fonte de investimento dos EUA e serão grandes fornecedores mundiais desse recurso. Por isso, aguardamos com grande expetativa que esses projetos entrem em funcionamento e congratulamo-nos com o facto de a TotalEnergies ter levantado a cláusula de `força maior` [em outubro, após os ataques terroristas em 2021]", disse.
"Estamos satisfeitos por ver esse projeto de novo no bom caminho, que conta com um investimento significativo dos EUA e um envolvimento significativo de empresas americanas. E, claro, estamos muito entusiasmados com o projeto da ExxonMobil, que lhe é diretamente vizinho, aguardamos com expetativa que entre em funcionamento", acrescentou.
O EximBank dos EUA, estatal e que financia as exportações norte-americanas, aprovou no ano passado um financiamento de 4,7 mil milhões de dólares (3,9 mil milhões de euros) ao megaprojeto de 20 mil milhões de dólares (16,9 mil milhões de euros) da TotalEnergies em Afungi, Cabo Delgado.
A norte-americana ExxonMobil anunciou em 20 de novembro que levantou a declaração de `força maior` para o megaprojeto de GNL em Cabo Delgado, passo essencial para a Decisão Final de Investimento (FID, na sigla em inglês), prevista para 2026. Trata-se do projeto de gás Rovuma LNG, um dos maiores em África, que funciona em paralelo com o da TotalEnergies, já em fase de retoma, avaliado em 30 mil milhões de dólares (25,4 mil milhões de euros), na sequência dos ataques em 2021.
A ExxonMobil prevê a produção de 18 milhões de toneladas por ano (mtpa) de GNL na Área 4. Já o projeto da Área 1, liderado pela TotalEnergies, em retoma, prevê entregas de GNL em 2029 e uma capacidade de 13 mtpa.
Além do GNL, disse Sarah Troutman, a mina de grafite de Balama, explorada em Cabo Delgado pela australiana Syrah e que exporta aquele minério para a produção de baterias para carros elétricos, inclusive em fábricas norte-americanas, "é uma importante fonte" para os EUA, que, em 2024, através da International Development Finance Corporation, instituição de financiamento ao desenvolvimento do Governo, atribuiu 150 milhões de dólares (125,9 milhões de euros) ao seu desenvolvimento.
"Isso faz parte do nosso esforço, mais uma vez, para garantir o escoamento de minerais críticos para os EUA", disse a governante.
A expetativa, apontou, é que "haja ainda mais investimento" dos EUA em áreas como o agronegócio e transformação digital: "Sabemos que estas são prioridades para o Governo, bem como o turismo. Por isso, certamente, levarei as boas notícias para Washington de que o Governo moçambicano está muito ansioso por estabelecer parcerias com empresas americanas. Sabemos que é uma prioridade para o Presidente Chapo, e agradecemos-lhe por isso".
Daí que, defende, há "oportunidades para aumentar" o comércio bilateral, entre EUA e Moçambique, que tem oscilado "entre 400 e 600 milhões de dólares [339 a 508 milhões de euros] por ano".
"Com a entrada em funcionamento dos projetos de GNL, com o aumento do interesse e das oportunidades no setor mineiro, haverá ainda mais oportunidades para aumentar esse comércio. Sabemos que muitas das exportações dos EUA para Moçambique incluem maquinaria, veículos e produtos agrícolas, e que as nossas importações incluem produtos agrícolas e várias outras coisas", exemplificou.
Contudo, assumiu, é necessário "reforçar" e diversificar as relações comerciais com Moçambique.
"Parte da nossa prioridade no Gabinete de África do Departamento de Estado é aumentar as exportações dos EUA para o continente para equilibrar as nossas relações comerciais bilaterais, pelo que estamos a procurar mais oportunidades para o fazer", disse.