Moderna com lucros de milhões esconde patentes da covid-19

A Moderna foi uma das empresas que desenvolveu uma vacina em tempo recorde para a covid-19. Financiada com fundos públicos, a empresa farmacêutica conseguiu lucros mas não está disposta a partilhar patentes, enquanto vende a maioria das vacinas a países de rendimentos maiores e esquece os países mais pobres que também foram afetados pela pandemia.

RTP /
Reuters

É uma das vacinas mais lucrativas de sempre e trouxe lucros astronómicos à Moderna. Com a pandemia de covid-19, foram mais de 18 mil milhões de dólares de lucro, a receber 36 milhões por dia, com uma margem de lucro a rondar os 70 por cento, um valor muito alto para produtos de saúde essenciais à saúde pública.

A empresa produziu uma vacina a menos de 3 dólares a dose e é a que tem o preço mais caro do mercado, custando 37 dólares por dose em alguns países, o que faz com que a Moderna cobre 13 vezes mais pela vacina do que gasta em custos de produção.

Com este tipo de valores, muitos investidores da Moderna tornaram-se multimilionários. Um deles foi o chefe executivo da empresa, Stephane Bancel. Com uma fortuna avaliada em 12 mil milhões de euros e apesar da volatilidade das acções da Moderna, Bancel tem uma fortuna agora avaliada em 15 mil milhões de euros.

A Aliança das Vacinas do Povo fez um cálculo em que descobriu que as vacinas criaram mais nove novos multimilionários, com Stephane Bancel a liderar lista e com dois fundadores da Moderna a também constarem dela.

O sucesso da vacina em países de maiores rendimentos tem levado a um tratamento da pandemia que neste momento passou a endemia, mas os lucros conseguidos por estes empresários não são normais para este tipo de produtos.

Os lucros são colossais mas, no caso da Moderna, o desenvolvimento da vacina foi realizado com financiamento público, dinheiro dos contribuintes. O governo americano também deu muitos milhões para investigação e criação de uma vacina eficaz. Apesar de todos estes incentivos públicos, a Moderna recusa-se a partilhar a sua patente com a Organização Mundial de Saúde.

A Moderna também tem sido acusada de lutar contra a pandemia de forma perversa, por ter vendido perto de 80 por cento das suas doses para países de maiores rendimentos, onde vivem apenas uns 12 por cento do total da população mundial. Isto aconteceu em 2020, e no ano seguinte a empresa vendeu 85 por cento das suas doses para países ricos, com os países de menores rendimentos a não terem acesso à vacina.

Na África do Sul foi criado um gabinete que tenta recrear vacinas contra a covid-19 para tentar atacar os efeitos da pandemia em África. Foi pedido à Moderna que colaborasse no projeto e, mesmo com lucros de milhões, a empresa recusou o pedido. A tecnologia acabará por ser descoberta e desenvolvida, mas levará muito mais tempo a chegar aos mesmos resultados da Moderna, o que para algumas pessoas pode vir a ser fatal.

Esta é uma atitude cada mais vez disseminada no setor farmacêutico. Esconder o Know-how e o conhecimento que levaram à criação de um produto de sucesso financeiro é cada vez mais comum, pois estas duas componentes são a chave para os lucros, em vez de infraestruturas de produção e os seus empregados.

Este tipo de atuação leva a que as empresas farmacêuticas tenham um modo de operação que desagrada à opinião pública. Estas são empresas contratadas por governos, que depois vendem o resultado final de investigações feitas com fundos públicos. O resultado leva a que os contribuintes não tenham acesso efetivo aos produtos criados com o seu dinheiro.
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