Mohamed Ali, uma lenda viva aos 70 anos

Oito dias mais velho do que Eusébio, Mohamed Ali fez ontem setenta anos, mais alquebrado pela doença de Parkinson do que pela idade. Para muitos, é o maior desportista do século XX e, para quase todos, o maior pugilista de todos os tempos. O neto de escravos rejeitou o nome da família desde as plantações de algodão e continua hoje a ostentar orgulhosamente o seu nome de convertido ao Islão.

RTP /
Fotografia de Mohamed Ali há sete anos Peer Grimm, Epa

A criança quje em 17 de janeiro de 1942 nasceu em Louisville, no Estado do Kentucky, com o nome de baptismo Cassius Marcellus Clay Jr., tornou-se pugilista, triunfou nos Jogos Olímpicos de 1960 e arrebatou em 1964 o título de campeão mundial de pesos pesados a Sonny Liston.

Conhecido como um lutador de grande agilidade e inteligência, emulou, nesse sentido, as qualidades que no final do século XIX fizeram de Jim Corbett o pai do boxe moderno, por contraste com o desporto antes baseado na força bruta. O estilo introduzido por Ali no boxe criou uma longa escola de seguidores, incluindo o notável pugilista cubano dos anos 90, Felix Savon, e a própria filha de Ali, Leila, hoje campa do mundo de boxe feminino.

Mohamed Ali contra a guerra do Vietname

Contudo, o facto de ser a maior referência do último meio século neste desporto não o impediu de se ver despojado do título de campeão mundial de pesos pesados - por motivos políticos.

Ali rejeitara a dado momento a cultura cristã incutida aos escravos e sempre assimiliada a "uncle Tom", o escravo dócil criado pela romancista Harriet Beecher Stowe. Converteu-se então ao islamismo e adoptou o nome que conserva até hoje. Mas isso não seria suficiente para Ali ser proibido de combater e de defender o título nos EUA.

O verdadeiro motivo para essa ostracização foi a recusa de Ali, em 1967, a ser mobilizado para a guerra do Vietname. A sua explicação lapidar foi que nenhum vietcong alguma vez lhe tinha chamado "nigger" [o equivalente à expreessão racista "escarumba"]. A tomada de posição de Ali surgia na sequência de um poderoso movimento pelos direitos cívicos da minoria afro-americana e também de um movimento anti-guerra.

Era ainda o tempo em que o movimento pelos direitos cívicos estava marcado pela pela personalidade do carismático dirigente cristão Martin Luther King e  tinha como aliada uma forte corrente judaica "liberal", no sentido norte-americano do termo, com todas as suas conotações esquerdizantes.

Mas já então uma parte do movimento negro se radicalizava para além da inspiração não-violenta de Luther King: surgia, por um lado, o movimento dos Panteras Negras, e, por outro, uma direcção muçulmana, em torno de Malcom X.

Este iria mais longe do que Ali na sua evolução política. Sob a influência de Malcolm X, o campeão de boxe evoluía do cristianismo para o Islão, e para a recusa da guerra, mas continuava a destacar-se sobretudo pelos dotes histriónicos de que fazia gala à aproximação de cada um dos seus grandes combates. Malcolm X, por seu lado, evoluía do islamismo para o marxismo e tornava-se assim um perigo para uns EUA ainda imbuídos de macartismo.

O preço que pagou o campeão

Tal como Luther King, Macolm X acabou, assim, assassinado. Ali pagou um preço comparativamente mais benigno: foi despojado do título de campeão do mundo, como retaliação pela sua recusa a combater contra os vietnamitas, e ficou durante três anos arredado das máximas glórias do boxe. Impedido de combater nos EUA, teve de ir recuperar o título num combate histórico, realizado no Zaire, contra George Foreman.

Mesmo o boxe enriquecido com o estilo de grandes artistas do ring, desde Corbett a Ali, continuava a ser um desporto cruel. O combate entre Ali e Foreman foi um massacre de parte a parte, com o establishment norte-americano a fazer claque pelo negro acomodatício, Foreman, contra o negro rebelde, Ali. Este ganhou finalmente, mas por um preço terrível, e com lesões sérias que provavelmente terão estado na origem da sua actual doença de Parkinson.

Mesmo assim, conservou o título por mais quatro anos. Perdeu-o em 1978 para Leon Spinks, e ainda conseguiu recuperar-lho. Retirou-se depois, ainda titular.
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