Momento de "intranquilidade" obriga a reposição da ordem no norte de Moçambique
O ministro do Interior de Moçambique, Paulo Chachine, reconheceu hoje que é necessário garantir a reposição da ordem face ao momento de "intranquilidade", com novos ataques de alegados grupos terroristas no norte do país.
"Quando há situações de desordem, quando há situação de intranquilidade, o que temos que fazer, o que tem que acontecer, é repormos a tranquilidade, é repormos a ordem", afirmou o ministro, em declarações aos jornalistas, em Maputo, após dirigir a cerimónia de passagem à reserva de 1.027 agentes da Polícia da República de Moçambique.
"É difícil saber que chegámos ao fim do combate ao terrorismo. Nunca se declara fim ao combate e dizer-se que concluímos o combate ao terrorismo, nunca ouvi em nenhum país", avançou ainda Paulo Chachine, defendendo que o terrorismo "não é uma coisa que se combate num dia", mas sim um "processo longo".
Além do recrudescimento nos últimos meses de ataques em alguns distritos de Cabo Delgado, onde também vários suspeitos de terrorismo têm sido detidos pelas Forças de Defesa e Segurança, no final de abril registaram-se pelo menos dois ataques na província vizinha de Niassa, com dois mortos.
O Estado Islâmico reivindicou, pelos seus canais de propaganda, a autoria dos ataques em Niassa, afirmando que provocou três mortos.
Em 16 de maio foi confirmado por fonte oficial da Embaixada da Rússia em Maputo um suposto ataque contra um navio oceanográfico russo "Atlântida".
De acordo com a fonte, o navio, de 62 metros de comprimento e que realizava trabalhos de investigação marinha, estava de regresso ao porto de Maputo quando, cerca das 15:00 locais (14:00 em Lisboa) de 10 de maio, foi alvo do ataque, a mais de três milhas da costa da ilha de Tambuzi, arquipélago das Quirimbas.
Confrontado pelos jornalistas com este caso, o ministro do Interior avançou que decorrem investigações para o esclarecer.
No entanto, horas antes, o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, avançou que as autoridades moçambicanas estão a investigar o suposto ataque ocorrido em 10 de maio, ao largo de Cabo Delgado, norte de Moçambique.
"Neste momento, as investigações estão em curso e tão logo haja resultados concretos e confirmarmos sobre o que efetivamente terá ocorrido, o Governo irá, com toda a transparência, prestar esclarecimentos ao público e à comunidade internacional", declarou Inocêncio Impissa, em conferência de imprensa, esta manhã, em Maputo.
O navio russo escalou entretanto Maputo e seguiu para Durban, na África do Sul.
Questionado pelos jornalistas, Inocêncio Impissa avançou ainda que o Governo não recebeu notificação formal da embaixada russa face ao incidente, mas adiantou que Moçambique já investiga o alegado atentado, assegurando estar "comprometido" com a segurança nas suas águas territoriais.
Fontes locais já associaram este incidente a ataques dos grupos terroristas que operam naquela região, sendo, a confirmar-se, o primeiro do género, em alto-mar, a uma embarcação estrangeira.
Desde outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, rica em gás, enfrenta uma rebelião armada com ataques reclamados por movimentos associados ao grupo extremista Estado Islâmico, que chegaram a provocar mais de um milhão de deslocados.
Além de Cabo Delgado, a vizinha província de Niassa também já foi palco em abril de ataques de membros destes grupos, que decapitaram dois guardas-florestais, enquanto o Estado Islâmico reivindicou a morte de três pessoas num ataque na mesma zona.
Só em 2024, pelo menos 349 pessoas morreram em ataques de grupos extremistas islâmicos na província, um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo dados divulgados recentemente pelo Centro de Estudos Estratégicos de África, uma instituição académica do Departamento de Defesa do Governo norte-americano que analisa conflitos em África.