Mordomo do Papa detido por posse ilegal de documentos

A polícia do Vaticano descobriu documentos da correspondência privada do Papa entre os papéis do mordomo de Bento XVI. Tratar-se-á de um leigo, Paolo Gabriele, que trabalha há vários anos na câmara papal e que foi detido esta manhã. Os responsáveis pela segurança vaticana vão agora investigar se este homem é na verdade "o Corvo", a pessoa responsável pela maior fuga de informação alguma vez registada na história da Igreja Católica Romana.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Polícia do Vaticano deteve um homem que tinha na sua posse vários documentos confidenciais do Papa e que poderá estar na origem da maior fuga de documentos da Santa Sé jamais registada. RTP

O porta-voz da Santa Sé, o padre Federico Lombardi, revelou que "o inquérito desencadeado pela polícia do Vaticano, segundo as instruções da Comissão dos Cardeais e sob a direção do procurador de justiça do Vaticano, permitiu identificar uma pessoa na posse ilegal de documentos confidenciais".

"Essa pessoa está agora sob jurisdição da magistratura vaticana", indicou Lombardi, sem precisar nem a identidade nem qualquer informação sobre essa pessoa. Mas o jornal 'Il Foglio' e a agência Ansa, afirmam que se trata de Paolo Gabriele, o mordomo principal que tem acesso direto ao papa e aos seus aposentos.

Gabriele está a ser questionado por magistrados do Estado da Santa Sé. A identificação e detenção do mordomo de Bento XVI esta tarde, pode no entanto não concluir a investigação.

Muitos questionam se Paolo Gabriele, considerado próximo do Papa, não será apenas um "bode expiatório" que esconde alguém muito mais bem colocado na hierarquia eclesiástica ou se não haverá mais envolvidos.

O anúncio da sua prisão, algo inédito no Vaticano, ocorre um dia após a destituição do presidente do Banco do Vaticano, o Instituto para as Obras Religiosas (IOR), Ettore Gotti Tedeschi, exonerado por "não ter cumprido com seu dever".
Vatikileaks
Desde janeiro de 2012 que têm vindo a ser publicados documentos enviados ao Papa pela Secretaria de Estado de Vaticano, além de apontamentos e de cartas trocadas entre Bento XVI e o seu secretário pessoal, Gerog Gaenswein.

Este verdadeiro "Vatikileaks", como lhe chamou o próprio padre Federico Lombardi, garantiu desde logo a atenção dos media ao revelar uma alegada tentativa de assassínio do Papa.

O jornal "Fatto Quotidiano" publicou então documentos sobre uma conspiração para por termo ao pontificado atual, de forma a por fim também às tentativas papais de tornar mais transparente a administração vaticana.

Seguiu-se a revelação de críticas internas. Em fevereiro, o canal de televisão "A7″ divulgou cartas enviadas pelo atual núncio nos Estados Unidos e ex-secretário-geral do Governatorato da Cidade do Vaticano (governo que administra este Estado) a Bento XVI, nas quais denunciava a "corrupção, a prevaricação e má gestão" na administração vaticana.

No dia 14 do mesmo mês, o porta-voz da Santa Sé denunciou a existência de uma espécie de "Vatikileaks" classificando-a de tentativa de desacreditar a Igreja. Um mês depois, Bento XVI nomeou uma comissão de três cardeais, Julián Herranz, Josef Tomko e Salvatore De Giorgi, para investigar todo o caso.
As "cartas secretas" de Bento XVI
A ação do Papa não foi suficiente. Este sábado, foi publicado um novo livro, com mais de uma centena de documentos. "Sua Santità. Le carte segrete di Benedetto XVI" ("Sua Santidade. As cartas secretas de Bento XVI") revela alegadas manobras e conspirações dentro do Vaticano.

O seu autor, o jornalista Gianluigi Nuzzi, escreveu igualmente "Vaticano SA", sobre as finanças da Santa Sé.

Alguns jornais anteciparam a publicação dos novos documentos, revelando alguns dos excertos mais "picantes", desde as intrigas do Vaticano aos escândalos sexuais do padre mexicano Marcial Maciel.

O livro torna públicos relatórios internos enviados para o Papa, sobre políticos italianos como Silvio Berlusconi e o presidente da República Giorgio Napolitano, além de documentos da Secretaria de Estado e do seu titular, o cardeal Tarcisio Bertone, referentes ao cessar-fogo do grupo terrorista ETA.

Alguns dos documentos têm o selo "Reservado" e foram elaborados pelo mesmo secretariado. O livro revela mesmo o número de conta aberta por Bento XVI no IOR, o banco do Vaticano, no dia 10 de outubro de 2007.

Na apresentação do livro, Vito Mancuso, um teólogo progressista, considerou que esta fuga de informação expõe uma luta interna no Vaticano, sobretudo contra o número dois da Santa Sé, o secretario de Estado, cardeal Tarcísio Bertone. Nuzzi negou tal teoria.
Vaticano fala de "ato criminoso"
O Vaticano reagiu ao novo livro de forma firme, em comunicado publicado segunda-feira.

"A nova publicação de documentos da Santa Sé  e documentos particulares do Santo Padre já não aparece como uma questionável - embora, obviamente, difamatória - iniciativa jornalística, mas assume claramente as características de um ato criminoso", lia-se no documento, publicado pela agência Zenit.

"O Santo Padre e alguns de seus colaboradores, bem como os remetentes das mensagens a ele endereçadas, tiveram os seus direitos individuais à privacidade e liberdade de correspondência violados", acrescentava o comunicado, prometendo ainda investigações profundas e um inquérito interno para descobrir a fonte de Nuzzi.

A Santa Sé promete igualmente proceder judicialmente contra Gianluigi Nuzzi e considera estas revelações uma mera tentativa de desacreditar a Igreja, algo que Nuzzi rejeita.
"Vontade de limpeza" no Vaticano
O autor do mais recente livro sobre os meandros políticos do Vaticano, garantiu  durante uma conferência de imprensa esta quarta-feira, em Roma, que "não pagou a ninguém nem um euro" para obter a documentação revelada.

"Há uma vontade de limpeza", explicou Nuzzi sobre as razões que levaram à fuga dos documentos. E referiu que os seus informantes, "são pessoas que vivem há anos no Vaticano e que querem expulsar os mercadores do templo".

"Todos confiam no Santo Padre" e sofrem por ter "violado a obrigação de manter o segredo", diz. À luz da detenção desta sexta-feira, Nuzzi poderia estar a referir-se ao mordomo Gabriele, que terá traído a confiança do Papa e que poderá não ser o único responsável pela fuga de informação.

Nuzzi assegurou que já não tem contactos com as suas fontes e garante também que não quis atacar nem a Igreja nem o Papa. "Não é um livro contra a Igreja, nem a fé, nem o Santo Padre" afirmou o jornalista, defendendo ainda que no seu livro se trata "de uma investigação, de um trabalho de documentação", ao contrário do escândalo do Wikileaks que pôs em perigo a segurança de um país.
Poucas novidades
Além de embaraçarem o Vaticano, as fugas de informação lançaram igualmente o debate, em Itália, sobre o direito a informar vs o direito à privacidade. Vários analistas sublinharam a pouca relevância da documentação incluída no livro de Nuzzi.

"Se repararmos bem, só fala de notícias já antigas" e cobertas pela imprensa ao longo de várias semanas, afirmou ao jornal "La Stampa" Alberto Melloni, docente de História do cristianismo na Universidade de Modena.

"Devo dizer que o livro não revela grandes novidades, não são, de facto, "cartas secretas", é em vez disso correspondência interna privada: o objetivo aparente é mais demonstrar que não há controlo nenhum, que tudo pode sair, que os arquivos não são bem guardados", acrescentou o professor.

A pessoa ou pessoas que furtaram os documentos arriscam a pena mais grave a aplicar pela Igreja, a excomunhão, por as suas ações terem posto em perigo a pessoa do Papa, disse Melloni.
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