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Morreu Emma Bonino, política italiana que lutou pelo acesso ao aborto
O percurso político de Emma Bonino começou com um crime. Em 1974, numa altura em que o aborto era ilegal em Itália, viajou para uma clínica clandestina em Florença para interromper uma gravidez não planeada.
"Ao regressar de comboio, à noite, decidi que nunca, nunca, nunca mais ninguém deveria ter de passar por esta humilhação", recordou mais tarde. Um ano depois, determinada a tirar o aborto da clandestinidade, entregou-se à polícia, transformando a sua "infração" privada num ato público de desafio.
A detenção fez manchetes, impulsionando uma campanha que acabou por conduzir à legalização do aborto em 1978. O episódio levou também Bonino ao Parlamento pelo Partido Radical, uma força pequena, mas incansável, na defesa dos direitos civis.
Nascida em 1948 numa quinta na pequena cidade de Bra, no noroeste de Itália, licenciou-se em Línguas e Literaturas Estrangeiras na Universidade Bocconi, em Milão, nunca se casou nem teve filhos.
"Não os tive por opção própria", disse à revista Io Donna numa entrevista de 2018. "É preciso muita coragem (para ter filhos). Com um filho, é preciso dizer 'para sempre'. Nunca consegui fazer isso."
Em 1975, fundou o Centro de Informação, Esterilização e Aborto (CISA), antes de se candidatar às eleições legislativas e ser eleita deputada pelo Partido Radical em 1976. O aborto acabou por ser legalizado em Itália em 1978. Manteve-se na linha da frente da política mesmo após os 70 anos, superando um cancro do pulmão apesar de se recusar a deixar de fumar.
Refletindo o seu grande prestígio em Itália — e contrastando com a desaprovação da Igreja Católica em relação à sua posição sobre o aborto —, o Papa Francisco fez uma visita invulgar fora do Vaticano, em novembro de 2024, para a ver em sua casa após um grave susto com a sua saúde.
Direta e de baixa estatura, Bonino era uma defensora apaixonada da justiça social e da igualdade de género; procurava deliberadamente a controvérsia para promover as suas muitas causas, tanto em Itália como no estrangeiro.
"Lutei por direitos durante toda a minha vida, alertando as pessoas para que os defendam, pois não duram para sempre", disse à emissora estatal Rai em 2024.Primeira mulher a usar calças numa reunião em BruxelasNuma carreira dinâmica que abrangeu cinco décadas, Bonino foi repetidamente eleita para os parlamentos italiano e europeu e desempenhou as funções de ministra dos Negócios Estrangeiros e de ministra dos Assuntos Europeus em Roma.
O Partido Radical ajudou a remodelar a sociedade italiana, promovendo uma série de causas através de atos de desobediência civil, greves de fome e dezenas de referendos.
Venceram algumas batalhas, como a proibição da energia nuclear. Noutras campanhas, incluindo o esforço para legalizar a canábis, não tiveram sucesso.
Para surpresa geral, Bonino foi nomeada para a Comissão Europeia em 1994, graças ao apoio do então primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Aí, assumiu um grupo heterogéneo de pastas que mais ninguém tinha reivindicado: a pesca, a política do consumidor e o gabinete de ajuda humanitária da Comunidade Europeia.
Foi a primeira mulher a usar calças numa reunião da Comissão — dominada por homens — e revelou-se uma das figuras políticas mais vibrantes numa Bruxelas muitas vezes cinzenta.
Segura de si e desenvolta perante as câmaras de televisão, rapidamente atraiu o interesse dos média ao embarcar em barcos de pesca espanhóis em alto-mar durante a "guerra do peixe" da União Europeia com o Canadá. Sem papas na língua, acusou o Canadá de pirataria, alegação negada pelo governo daquele país.“Não acho que as mulheres sejam uma categoria”
Condenou o silêncio da comunidade internacional sobre a situação das mulheres afegãs sob o regime talibã, mas declarou à Reuters, em 1996, que não se via como uma feminista tradicional.
"Não quero e não acho que nós, mulheres, sejamos uma categoria", disse. "Se pensarmos que somos uma categoria a proteger, acredito que perderemos a nossa luta."
Após a sua passagem por Bruxelas, dedicou-se a uma grande variedade de causas, incluindo a campanha contra a mutilação genital feminina, a igualdade de pensões em Itália e os direitos dos migrantes. Promoveu também uma maior integração na União Europeia, fundando o partido +Europa (Mais Europa) em 2017.
Embora tenha obtido bons resultados nas sondagens de popularidade, o novo partido teve um fraco desempenho nas urnas, não conseguindo conquistar qualquer lugar nas eleições para o Parlamento Europeu de 2019 e 2024, e obtendo apenas dois lugares nas eleições nacionais de 2022.
O anúncio da morte de Emma Bonino foi feito esta sexta-feira pelo partido, o + Europa (Mais Europa).
"Emma deixou-nos, mas nunca nos deixará. Hoje, não é apenas a nossa líder que parte, mas uma das protagonistas mais lúcidas, corajosas e livres da história política do nosso país e do mundo livre", escreveu o partido no Facebook.
A detenção fez manchetes, impulsionando uma campanha que acabou por conduzir à legalização do aborto em 1978. O episódio levou também Bonino ao Parlamento pelo Partido Radical, uma força pequena, mas incansável, na defesa dos direitos civis.
Nascida em 1948 numa quinta na pequena cidade de Bra, no noroeste de Itália, licenciou-se em Línguas e Literaturas Estrangeiras na Universidade Bocconi, em Milão, nunca se casou nem teve filhos.
"Não os tive por opção própria", disse à revista Io Donna numa entrevista de 2018. "É preciso muita coragem (para ter filhos). Com um filho, é preciso dizer 'para sempre'. Nunca consegui fazer isso."
Em 1975, fundou o Centro de Informação, Esterilização e Aborto (CISA), antes de se candidatar às eleições legislativas e ser eleita deputada pelo Partido Radical em 1976. O aborto acabou por ser legalizado em Itália em 1978. Manteve-se na linha da frente da política mesmo após os 70 anos, superando um cancro do pulmão apesar de se recusar a deixar de fumar.
Refletindo o seu grande prestígio em Itália — e contrastando com a desaprovação da Igreja Católica em relação à sua posição sobre o aborto —, o Papa Francisco fez uma visita invulgar fora do Vaticano, em novembro de 2024, para a ver em sua casa após um grave susto com a sua saúde.
Direta e de baixa estatura, Bonino era uma defensora apaixonada da justiça social e da igualdade de género; procurava deliberadamente a controvérsia para promover as suas muitas causas, tanto em Itália como no estrangeiro.
"Lutei por direitos durante toda a minha vida, alertando as pessoas para que os defendam, pois não duram para sempre", disse à emissora estatal Rai em 2024.Primeira mulher a usar calças numa reunião em BruxelasNuma carreira dinâmica que abrangeu cinco décadas, Bonino foi repetidamente eleita para os parlamentos italiano e europeu e desempenhou as funções de ministra dos Negócios Estrangeiros e de ministra dos Assuntos Europeus em Roma.
O Partido Radical ajudou a remodelar a sociedade italiana, promovendo uma série de causas através de atos de desobediência civil, greves de fome e dezenas de referendos.
Venceram algumas batalhas, como a proibição da energia nuclear. Noutras campanhas, incluindo o esforço para legalizar a canábis, não tiveram sucesso.
Para surpresa geral, Bonino foi nomeada para a Comissão Europeia em 1994, graças ao apoio do então primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Aí, assumiu um grupo heterogéneo de pastas que mais ninguém tinha reivindicado: a pesca, a política do consumidor e o gabinete de ajuda humanitária da Comunidade Europeia.
Foi a primeira mulher a usar calças numa reunião da Comissão — dominada por homens — e revelou-se uma das figuras políticas mais vibrantes numa Bruxelas muitas vezes cinzenta.
Segura de si e desenvolta perante as câmaras de televisão, rapidamente atraiu o interesse dos média ao embarcar em barcos de pesca espanhóis em alto-mar durante a "guerra do peixe" da União Europeia com o Canadá. Sem papas na língua, acusou o Canadá de pirataria, alegação negada pelo governo daquele país.“Não acho que as mulheres sejam uma categoria”
Em 1997, foi brevemente detida pela milícia talibã durante uma visita ao Afeganistão, depois de membros do seu grupo terem tirado fotografias num hospital feminino — uma infração às normas talibãs.
Condenou o silêncio da comunidade internacional sobre a situação das mulheres afegãs sob o regime talibã, mas declarou à Reuters, em 1996, que não se via como uma feminista tradicional.
"Não quero e não acho que nós, mulheres, sejamos uma categoria", disse. "Se pensarmos que somos uma categoria a proteger, acredito que perderemos a nossa luta."
Após a sua passagem por Bruxelas, dedicou-se a uma grande variedade de causas, incluindo a campanha contra a mutilação genital feminina, a igualdade de pensões em Itália e os direitos dos migrantes. Promoveu também uma maior integração na União Europeia, fundando o partido +Europa (Mais Europa) em 2017.
Embora tenha obtido bons resultados nas sondagens de popularidade, o novo partido teve um fraco desempenho nas urnas, não conseguindo conquistar qualquer lugar nas eleições para o Parlamento Europeu de 2019 e 2024, e obtendo apenas dois lugares nas eleições nacionais de 2022.
O anúncio da morte de Emma Bonino foi feito esta sexta-feira pelo partido, o + Europa (Mais Europa).
"Emma deixou-nos, mas nunca nos deixará. Hoje, não é apenas a nossa líder que parte, mas uma das protagonistas mais lúcidas, corajosas e livres da história política do nosso país e do mundo livre", escreveu o partido no Facebook.
"Emma Bonino foi, durante décadas, uma voz importante e reconhecível da política italiana, defendendo as suas ideias com determinação. Os nossos percursos e sensibilidades foram muito diferentes, mas isso nunca me impediu de reconhecer a sua influência e o seu papel na vida pública da nossa nação", reagiu a chefe de governo Giorgia Meloni na rede social X.
Emma Bonino ha rappresentato per decenni una voce forte e riconoscibile della politica italiana, portando avanti le sue idee con determinazione.
— Giorgia Meloni (@GiorgiaMeloni) September 11, 2026
Le nostre storie e le nostre sensibilità sono state lontane, ma questo non mi ha mai impedito di riconoscerne il peso e il ruolo nella…
c/agências