Morreu o ex-primeiro-ministro de Espanha Adolfo Suarez

O primeiro líder de governo do pós franquismo, Adolfo Suárez, morreu hoje, domingo, em Madrid, onde se encontrava internado em estado grave desde sexta-feira. O antigo governante espanhol sofria de Alzheimer desde 2003 e já só respondia a estímulos afetivos. Suárez era considerado um dos principais artífices da transição pacífica do franquismo para a democracia em Espanha nos anos 70 do século XX.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Adolfo Suarez (segundo a contar da direita) ao lado de Filipe Gonzalez, José Maria Aznar e Leopoldo Calvo Sotello, todos ex-primeiro-ministros de Espanha, antes de um almoço conjunto em celebração do vigésimo aniversário das primeiras eleições do período da democracia pós-franquista Reuters

Adolfo Suarez nasceu em 22 de setembro de 1932 em Cebreros, Ávila, Espanha, filho de um funcionário público. A mãe pertencia ao influente clã político dos Cebreros. Entrou na Universidade de Salamanca com apenas 16 anos, tendo-se formado em Direito aos 21 e obtendo depois o doutoramento suma cum laude em Madrid. Ingressou ainda no Partido Nacionalista de Franco, tendo ocupado diversos cargos, incluisivé no secretariado-geral entre 1961-64. Em 1976, com apenas 43 anos, Suarez foi nomeado chefe de governo e mostrou-se capaz de unir diversas sensiblidades políticas, mantendo-se ao mesmo tempo fiel às suas convicções, tendo governado de forma moderada e iniciado o diálogo com outras forças políticas.

Legalizou os partidos socialista e comunista e chamou os espanhóis às urnas pela primeira vez desde 1936. Uniu ainda sociais democratas, liberais e democratas-cristãos num único partido, o União do Centro Democrático (UDC) tendo concorrido como seu líder às eleições a 15 de junho de 1977, que ganhou, de certa forma naturalmente.

Os primeiros anos dos seus governos até 1979 foram dedicados ao desmantelamento das estruturas franquistas, juntamente com socialistas e especialmente com os comunistas, cujo líder, Santiago Carrillo, chamava a Suarez "um anti-comunista inteligente".
Anos do franquismo
Adolfo Suarez iniciou a sua carreira política no Partido Nacionalista de Franco, tendo desemprenhado funções nas Cortes e como governador.  Adolfo Suarez dedicou-se ao setor audiovisual espanhol, por dois períodos intercalados (1964-68 e 1969-73), tendo sido responsável do primeiro canal de televisão.

Durante estes períodos as regras da censura foram atenuadas, num primeiro sinal de moderação e liberalismo.

Em março de 1975 foi nomeado secretario-geral adjunto do Movimento Nacionalista, tendo em dezembro sucedido a Franco como secretário-geral, após a morte deste e ocupando um lugar no governo do então primeiro-ministro Carlos Arias Navarro.

No mesmo período co-fundou e presidiu dentro do Partido Nacionalista ao grupo político semi-reformista União dos Povos de Espanha. Em 1976 defendeu com vigor a legalização de outros partidos políticos.

Em julho desse ano o Rei Juan Carlos I confiou-lhe a formação de um novo governo. A nomeação provocou reações contraditórias, já que Suarez, além de pertencer ao Movimento Nacional Franquista, tinha ligações à Opus Dei, o movimento católico espanhol fundado por Josemaria Escrivá de Balaguer.

A ratificação do seu mandato anterior e a eleição por quatro anos nas eleições de 1977 para liderar o primeiro governo da democracia, consagraram-no como uma figura emblemática do período de transição pós-franquista.
Tensões e pressões
Os anos seguintes foram contudo assombrados pelas pretensões à autonomia de algumas regiões espanholas e pela luta do grupo separatista basco, ETA, cujos atentados terroristas levavam a uma média de um assassínio político a cada três dias no início dos anos 80. A UCD lidou mal com as pressões e a crescente popularidade do Partido Socialista espanhol levou a que, em novas eleições em 1979, o partido não conseguisse obter maioria nas Cortes. O apoio parlamentar permitiu a Suarez manter-se no poder mas foi contudo obrigado a formar o seu quinto gabinete em setembro de 1980, tendo ganho um voto de confiança à custa da promessa de autonomia da Andaluzia feita ao PS andaluz, decisão que desagradou à maioria dos espanhóis.

Tendo entretanto perdido o apoio do Rei, Adolfo Suarez demitiu-se de surpresa, em 29 de janeiro de 1981, tendo levado a especulações sobre a pressão dos militares.

No mesmo ano, o Rei concedeu-lhe o título de "duque de Suárez" pelo seu papel no processo da transição espanhola.

Adolfo Suarez fundou depois o partido do Centro Democrático e Social (CDS) de Espanha, tendo sido eleito deputado das Cortes em 82, 86 e 89.

Demitiu-se da presidência do Partido em 91 devido aos maus resultados do partido e afastou-se em definitivo da vida política espanhola. Em 1996 foi-lhe concedido o prémio "Principe das Astúrias da Concórdia" pela sua contribuição para a transição pacífica do pós franquismo.
Anúncio da morte
Internado segunda-feira dia 17 de março com uma infeção respiratória, sequela considerada já habitual pela família, Adolfo Suarez desta vez não recuperou.

Sexta-feira o filho, Adolfo Suarez Illana, avisou em conferência de imprensa urgente que o estado de saúde o pai, de 81 anos, se tinha agravado e que a sua morte estava iminente.

"Estes últimos dias foram felizes, ofereceu-nos mais sorrisos que nos últimos cinco anos" recordou Adolfo Suarez Illana, um dos cinco filhos de Adolfo Suarez, que seguiu por algum tempo as pisadas do pai na política inserido no Partido Popular.
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