Mundo
“Morte aos Judeus” é apenas o nome de uma aldeia francesa
“Morte aos Judeus” é o nome de uma localidade 100 quilómetros a sul de Paris que mereceu recentemente a atenção do Centro Judaico Simon Wiesenthal. Numa carta enviada ao ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, o centro exige uma tomada de posição do Governo francês e o caminho é apenas um: mudar o nome da localidade e mudá-lo já. Claro que a ofensiva israelita em Gaza coloca os judeus numa posição sensível e a forte componente muçulmana na demografia gaulesa é capaz de baralhar qualquer orientação política.
O nome da terra, na verdade um lugarejo composto de meia dúzia de casas e uma quinta com uma estrada a passar pelo meio - “Mort aux Juifs” na língua de Balzac - remontará ao século XI, quando foram desencadeados os pogroms que resultariam em 1306 na expulsão de França de 110 mil judeus.
Mas, para o Centro Simon Wiesenthal, mais grave do que um nome numa placa é o facto de que “ninguém parece ter prestado grande atenção ao assunto em setenta anos”, setenta anos desde o fim da II Guerra Mundial, setenta anos desde que foram expulsos os últimos nazis de solo francês.
A questão é assim exposta por Shimon Samuels, director do Centro Wiesenthal para as Relações Internacionais, numa carta enviada esta segunda-feira ao ministro Bernard Cazeneuve.
“Ninguém tem nada contra os judeus”
E o assunto foi agora trazido à luz do dia pelo Washington Post. Entretanto, parece tortuoso o caminho que poderia levar à mudança de nome. Mas não deverá ser sequer esse o caso. Marie-Elizabeth Secretand, autarca de Courtemaux, sob cuja jurisdição se encontra “Morte aos Judeus”, questiona a razão de tanto barulho por causa do nome da terra.Mas a toponímia anti-semita acaba por não ser exclusiva de terras gaulesas, sendo até muito provavelmente mais prolífica na Península Ibérica, de onde as comunidades sefarditas foram escorraçadas séculos a fio.
“É ridículo. Esse nome sempre existiu. Porquê mudar um nome que data da Idade Média ou de ainda antes? Devíamos respeitar estes nomes antigos”, afirmou a autarca em declarações à France Presse, para deixar a garantia de que “é claro que ninguém tem o que quer que seja contra os judeus”.
Secretand avisa que não será fácil proceder a essa alteração e lembra que o município de Courtemaux rejeitou uma proposta no mesmo sentido submetida em 1992 por uma organização anti-racista.
Caso Dreyfuss e outros episódios
Este assunto, mas do que aparenta, remete para um sentimento que está entranhado na nação gaulesa. Não é apenas uma questão de toponímia, nem é o primeiro episódio a ilustrar o aparente sentimento que os franceses nutrem contra os judeus – basta recordar o Caso Dreyfuss, que nos finais do século XIX envolveu intelectuais, militares, tribunais, o povo no degredo de um oficial judeu injustamente condenado num caso de espionagem.
Já recentemente, o jogador francês Nicolas Anelka repetiu durante um jogo da Liga Inglesa a quenelle, cumprimento identificado como uma saudação anti-semítica e que lhe valeu a dispensa do West Bromwich. Na altura, Anelka desculpou-se dizendo que se tratava apenas de um gesto de solidariedade para com o comediante Dieudonne M'Bala M'Bala, seu amigo, que estava a ser perseguido por alegado comportamento anti-semita.
A França acaba por ser terreno fértil na problemática da emigração e convivência étnica, com os milhões de cidadãos com origem magrebina a viver nos banlieues das grandes cidades, jovens muitas vezes marginalizados pelo país que colocou a igualdade e a fraternidade nas armas do escudo nacional.
Talvez por essa carga demográfica muçulmana, mais do que qualquer outra nação europeia, a França tem vindo a desenvolver um anti-semitismo crescente, o que gera justificada preocupação junto da sua comunidade judaica.
Refere o artigo do Post, com base na sondagem de uma organização norte-americana, que 37 por cento da população francesa admitiu comportamentos “anti-judaicos”, uma percentagem muito superior aos 24 por cento da média europeia.
Mas, para o Centro Simon Wiesenthal, mais grave do que um nome numa placa é o facto de que “ninguém parece ter prestado grande atenção ao assunto em setenta anos”, setenta anos desde o fim da II Guerra Mundial, setenta anos desde que foram expulsos os últimos nazis de solo francês.
A questão é assim exposta por Shimon Samuels, director do Centro Wiesenthal para as Relações Internacionais, numa carta enviada esta segunda-feira ao ministro Bernard Cazeneuve.
“Ninguém tem nada contra os judeus”
E o assunto foi agora trazido à luz do dia pelo Washington Post. Entretanto, parece tortuoso o caminho que poderia levar à mudança de nome. Mas não deverá ser sequer esse o caso. Marie-Elizabeth Secretand, autarca de Courtemaux, sob cuja jurisdição se encontra “Morte aos Judeus”, questiona a razão de tanto barulho por causa do nome da terra.Mas a toponímia anti-semita acaba por não ser exclusiva de terras gaulesas, sendo até muito provavelmente mais prolífica na Península Ibérica, de onde as comunidades sefarditas foram escorraçadas séculos a fio.
“É ridículo. Esse nome sempre existiu. Porquê mudar um nome que data da Idade Média ou de ainda antes? Devíamos respeitar estes nomes antigos”, afirmou a autarca em declarações à France Presse, para deixar a garantia de que “é claro que ninguém tem o que quer que seja contra os judeus”.
Secretand avisa que não será fácil proceder a essa alteração e lembra que o município de Courtemaux rejeitou uma proposta no mesmo sentido submetida em 1992 por uma organização anti-racista.
Caso Dreyfuss e outros episódios
Este assunto, mas do que aparenta, remete para um sentimento que está entranhado na nação gaulesa. Não é apenas uma questão de toponímia, nem é o primeiro episódio a ilustrar o aparente sentimento que os franceses nutrem contra os judeus – basta recordar o Caso Dreyfuss, que nos finais do século XIX envolveu intelectuais, militares, tribunais, o povo no degredo de um oficial judeu injustamente condenado num caso de espionagem.
Já recentemente, o jogador francês Nicolas Anelka repetiu durante um jogo da Liga Inglesa a quenelle, cumprimento identificado como uma saudação anti-semítica e que lhe valeu a dispensa do West Bromwich. Na altura, Anelka desculpou-se dizendo que se tratava apenas de um gesto de solidariedade para com o comediante Dieudonne M'Bala M'Bala, seu amigo, que estava a ser perseguido por alegado comportamento anti-semita.
A França acaba por ser terreno fértil na problemática da emigração e convivência étnica, com os milhões de cidadãos com origem magrebina a viver nos banlieues das grandes cidades, jovens muitas vezes marginalizados pelo país que colocou a igualdade e a fraternidade nas armas do escudo nacional.
Talvez por essa carga demográfica muçulmana, mais do que qualquer outra nação europeia, a França tem vindo a desenvolver um anti-semitismo crescente, o que gera justificada preocupação junto da sua comunidade judaica.
Refere o artigo do Post, com base na sondagem de uma organização norte-americana, que 37 por cento da população francesa admitiu comportamentos “anti-judaicos”, uma percentagem muito superior aos 24 por cento da média europeia.