Morte de líder da Venezuela é "perda para a democracia mundial" - Boaventura Sousa Santos

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O sociólogo português Boaventura Sousa Santos, várias vezes citado por Hugo Chávez nos discursos, disse hoje que a morte do presidente da Venezuela constitui "uma perda extraordinária para a democracia mundial".

Chávez era "um dos mais carismáticos líderes do mundo, que combinava carisma com democracia", disse Boaventura Sousa Santos à agência Lusa, enaltecendo as transformações sociais dos últimos anos naquele país da América do Sul.

Os governos de Chávez promoveram "uma redistribuição social da riqueza do país", sobretudo da que resulta da exploração do petróleo, "que antes ficava nas mãos das oligarquias", disse.

"A sua morte é uma enorme perda, em particular para a América Latina e para a Venezuela", sublinhou o diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (UC).

Ele foi também "o grande impulsionador da integração da América Latina", com a qual "foi solidário em termos muito concretos, desde Cuba à Argentina", além de outros estados, para que a região "se fortalecesse e se unisse".

"Isto os latino-americanos não vão esquecer", acrescentou o catedrático jubilado da Faculdade de Economia da UC, que o Ministério do Poder Popular para a Cultura da Venezuela distinguiu, em 2007, com uma menção honrosa do "Prémio Libertador ao Pensamento Crítico -- 2006", pela sua obra "Conhecer desde o Sul".

Boaventura Sousa Santos, que conhece bem a realidade político-social daquele país, disse que Chávez citou várias vezes textos da sua autoria nas intervenções públicas.

"O socialismo é a democracia sem fim" foi uma das frases do português mais citadas pelo líder da Revolução Bolivariana.

Sousa Santos salientou que Chávez "melhorou significativamente a vida das camadas populares" do país.

Na Europa, "ninguém imagina um povo a chorar pela morte do seu presidente democraticamente eleito", observou.

"Foi alguém que restituiu a autoestima a milhões de venezuelanos, para quem o estado era apenas punitivo e opressor, referiu.

O carisma "morre com o líder", mas "a democracia tem de continuar", tal "como o processo de redistribuição" da riqueza, sendo este "um dos grandes desafios do futuro", numa Venezuela "com muita corrupção e criminalidade" que Chávez "deixa muito polarizada", disse.

"É uma incógnita saber por quanto tempo as Forças Armadas vão continuar a apoiar o processo de transformações sociais, agora sem Chávez", afirmou Boaventura Sousa Santos.

O líder venezuelano morreu na terça-feira em Caracas, quase três meses após ter sido operado pela quarta vez a um cancro, a 11 de dezembro de 2012, em Havana, e quase cinco meses depois de ter sido reeleito para o seu terceiro mandato, em 07 de outubro.

Chávez, que morreu com 58 anos, regressou à Venezuela em 18 de fevereiro, ficou internado no Hospital Militar de Caracas e não chegou a tomar posse como presidente, ficando o lugar assegurado pelo vice-presidente, Nicolás Maduro, numa decisão autorizada pela Justiça venezuelana apesar dos protestos da oposição.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela anunciou que Nicolás Maduro assumirá formalmente as funções de presidente interino e que dentro de 30 dias haverá eleições.

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