Morte de Zarqawi representa golpe no terrorismo
O líder da Al-Qaida no Iraque, Abu Mussab al-Zarqawi, foi morto num ataque aéreo a norte de Bagdad, num duro golpe vibrado à rede terrorista, apesar de muito restar por fazer, como admitiram os próprios norte-americanos.
Sinal da persistência dos receios de violência, Washington considerou que a morte de Zarqawi não teria uma incidência imediata no número de soldados estacionados no Iraque e que uma tal decisão dependeria das condições no terreno, onde mais 20 pessoas morreram hoje em dois atentados em Bagdad.
A Al-Qaida, aliás, comprometeu-se a prosseguir o combate contra as forças norte-americanas, num comunicado confirmando a morte do extremista jordano sunita, cujo grupo é responsável por atentados, raptos e assassínios e que declarara guerra aos xiitas no Iraque.
"Al-Zarqawi foi eliminado", proclamou numa conferência de imprensa, em Bagdad, o primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, em tom triunfal, suscitando os aplausos da assistência.
"O que se passou hoje é o resultado da cooperação do povo iraquiano, que facilitou uma operação combinada das forças de polícia e da força multinacional" dirigida pelos Estados Unidos, disse.
A morte de Al-Zarqawi, cuja cabeça fora posta a prémio por Washington por 25 milhões de dólares, é o mais importante revés sofrido pelas forças hostis à presença das tropas norte-americanas no Iraque desde a captura do Presidente deposto Saddam Hussein, em Dezembro de 2003.
Segundo o comandante da Força Multinacional no Iraque, o general norte-americano George Casey, o inimigo público número um no Iraque "foi morto num ataque aéreo contra um refúgio isolado, oito quilómetros a norte de Baaquba (60 quilómetros a norte de Bagdad), às 18:15 (15:15 de Lisboa) de quarta-feira".
"O ataque foi lançado após informações obtidas de altos responsáveis do seu grupo, segundo os quais ele iria participar numa reunião a oito quilómetros de Baaquba. Um dos seus auxiliares mais importantes e seu conselheiro religioso, o xeque Abdel Rahman, foi morto com ele", declarou.
"Unidades da polícia iraquiana chegaram em primeiro lugar ao local. Tropas da coligação identificaram depois Zarqawi através das suas impressões digitais, do seu rosto e das suas cicatrizes", adiantou Casey.
O exército norte-americano apresentou aos jornalistas uma fotografia a preto-e-branco mostrando o rosto de Zarqawi, 39 anos, de olhos fechados e com espessa barba. Mostrou também fotografias do ataque, em que estiveram envolvidos os serviços de informações jordanos, segundo Amã.
De acordo com o porta-voz do exército norte-americano, general William Caldwell, "além de Zarqawi, Abdel Rahman e alguns membros da Al-Qaida, foram mortas uma mulher e uma criança quando foram largadas duas bombas de 250 quilogramas sobre a casa" no ataque.
Segundo fontes próximas da família de Al-Zarqawi, uma das três mulheres do dirigente da Al-Qaida morreu "provavelmente" no ataque.
"O corpo de Zarqawi foi levado para um destino secreto, onde serão realizadas análises aprofundadas, em particular ao ADN, cujos resultados são aguardados no prazo de 48 horas", acrescentou Caldwell, adiantando que o egípcio Abu al-Masri poderá suceder a Zarqawi na liderança da Al-Qaida no Iraque.
Apesar de a eliminação de Al-Zarqawi ter sido apresentada como um grande êxito, os Estados Unidos e os seus aliados mais próximos não têm ilusões quanto ao prosseguimento da violência no Iraque.
O Presidente George W. Bush declarou que, com a morte de Zarqawi, "a ideologia do terror perdeu um dos seus chefes mais visíveis e mais activos. A morte de Zarqawi é um duro golpe vibrado à Al-Qaida".
Contudo, advertiu também que era necessário "esperar que os terroristas e os insurrectos continuem sem ele".
Da mesma forma, o seu aliado mais chegado, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, sublinhou que a morte de Zarqawi "representa um golpe para a Al-Qaida", adiantando contudo que, apesar disso, "eles continuarão a matar".
"Se bem que o dirigente designado da Al-Qaida no Iraque esteja agora morto, a sua organização terrorista continuará a representar uma ameaça, pois os seus membros continuarão a tentar aterrorizar o povo iraquiano e desestabilizar o seu Governo", admitiu o general Casey.
Al-Maliki, por seu turno, declarou-se optimista quanto à capacidade das forças de segurança de conterem a violência, sobretudo após a nomeação dos ministros encarregados da segurança, aguardada há várias semanas.
Bush saudou a finalização da constituição do Governo e anunciou uma conferência entre as administrações norte-americana e iraquiana na terça-feira, para avaliar a situação no país.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, falou em "alívio" após a morte de Al-Zarqawi, um ex-delinquente que fez o seu baptismo de fogo no Afeganistão e que ascendeu à notoriedade com a difusão, em 2004, de um vídeo com a decapitação de um refém norte-americano, que o apresenta de máscara no papel de carrasco.
"Não podemos pretender que isto vá significar o fim da violência, mas é um alívio que um homem tão abominável e perigoso, que fez tanto mal aos iraquianos, já não possa causar danos", afirmou Annan aos jornalistas.
Também o responsável pela política externa da UE, Javier Solana, realçou a importância do golpe para a Al-Qaida, advertindo contudo que não resolverá todas as dificuldades do Iraque.
"É evidentemente uma grande derrota para a Al-Qaida", reconheceu, por seu turno, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, acrescentando: "Esperamos poder continuar a trabalhar com todos os nossos parceiros para fazer da violência no Iraque uma coisa do passado".
"O grande Satã morreu e estou de tal forma satisfeito que me esqueço da penúria de água e electricidade", disse Majid Hachem al- Assadi, um funcionário xiita de Bagdad.
Como os seus vizinhos, começou a distribuir doces enquanto os muezins anunciavam do alto das mesquitas: "o carniceiro dos adeptos do profeta (os xiitas) morreu" ou "Al-Zarqawi, o amaldiçoado, acabou".
Do lado sunita, Mondher Obeidi, um talhante, considerou que "isto não vai mudar nada".
"Temos mil Zarqawis que percorrem as ruas. São eles que matam e raptam as pessoas em total impunidade", disse, aludindo aos alegados actos de violência cometidos pelo exército norte-americano no Iraque.