"Mortos e feridos" em "operação antiterrorista" de Kiev no leste da Ucrânia

A braços com uma nova série de ocupações de edifícios públicos por homens armados pró-Rússia, o poder político interino de Kiev decidiu desencadear em Slaviansk, no leste da Ucrânia, uma “operação antiterrorista” com “unidades de todas as estruturas de força”. Um balanço provisório e ainda pouco preciso do Ministério ucraniano do Interior refere “mortos e feridos em ambos os lados”. Na frente diplomática, sucedem-se os telefonemas em tom áspero de Washington para Moscovo.

RTP /
Homens armados assumiram parcialmente, nas últimas 24 horas, o controlo de Slaviansk, no leste da Ucrânia Gleb Garanich, Reuters

“Começou uma operação antiterrorista em Slaviansk”, escrevia ao início da manhã o ministro ucraniano do Interior na sua página do Facebook. “Participam unidades de todas as estruturas de força do país. Que Deus esteja connosco”, acrescentava Arsen Avakov, sem avançar com mais detalhes.

Mais tarde, numa declaração citada pela Interfax ucraniana, o ministro pediria a “todos os civis” de Slaviansk para “saírem do centro da cidade, permanecerem nos seus apartamentos e não se aproximarem das janelas”.

Arsen Avakov voltou entretanto a recorrer às redes sociais para fazer um primeiro balanço da “operação antiterrorista”, dando conta de “mortos e feridos em ambos os lados”. Pelo menos um efetivo dos serviços de segurança foi abatido e outros cinco elementos de forças leais a Kiev ficaram feridos, segundo o ministro, que apontou para “um número indeterminado” de baixas “entre os separatistas”.

Na semana passada, grupos de separatistas que ocuparam edifícios públicos em Donetsk e Lugansk, duas das maiores cidades do leste da Ucrânia, chegaram a proclamar uma “república soberana”, propugnando a adesão à Federação Russa.


Foi também Avakov quem denunciou, no sábado, uma “agressão externa da Federação Russa”, depois de uma nova vaga de investidas de grupos pró-russos contra edifícios públicos, incluindo instalações das forças de segurança, no leste da Ucrânia. Segundo o mesmo governante, os homens que protagonizaram aquelas ocupações estariam equipados com “armas unicamente utilizadas nas Forças Armadas russas”.

Arsen Avakov deu mesmo conta de “combates” nas localidades de Kramatorsk e Krasny Liman, na província de Donetsk, sobre a linha de fronteira com a Rússia. Sem notícia de vítimas.

Num cenário em tudo análogo aos acontecimentos de março na Crimeia, homens armados e fardados, sem qualquer identificação de nacionalidade, assumiram parcialmente, nas últimas 24 horas, o controlo de Slaviansk, uma cidade maioritariamente russófona de quase 100 mil habitantes. Foram erguidas bandeiras russas. E em Donetsk perto de duas centenas de manifestantes pró-russos invadiram a sede da polícia sem encontrar resistência.
“Inabilidade”

Na noite de sábado, o Presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchinov, reagiu às últimas ocupações com a convocação de uma reunião de segurança, que se prolongou por aproximadamente três horas. A agenda deste conselho de segurança seria sintetizada num comunicado lacónico reproduzido pelas agências internacionais: “Os participantes estudaram as questões e as medidas relativas à normalização da situação no leste da Ucrânia”.

De Moscovo - que continua a recusar-se a reconhecer o Governo provisório instalado em Kiev, depois da deposição, em fevereiro, do Presidente Viktor Ianukovich – saiu entretanto uma nova advertência contra a repressão de ativistas pró-Rússia pela força. Um aviso que tem como contraforte o recente posicionamento de 40 mil operacionais militares na fronteira com a Ucrânia.


Foto: Sergei Karpukhin, Reuters

O ministro russo dos Negócios Estrangeiros advertiu também para as consequências diplomáticas de qualquer tipo de ação armada por parte das autoridades ucranianas. Desde logo nas conversações previstas para a próxima quinta-feira em Genebra, com delegações de Moscovo, Kiev, Washington e da União Europeia.

Rejeitando, uma vez mais, as acusações de Kiev, secundadas pelos Estados Unidos e por outras chancelarias ocidentais, Serguei Lavrov redarguiu que o Executivo ucraniano do ex-banqueiro Arseny Iatseniuk tem demonstrado, nas últimas semanas, “a sua inabilidade para assumir a responsabilidade pelo destino do país”.

Em novo contacto telefónico com Lavrov, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, ameaçou com “consequências suplementares”, caso o Kremlin de Vladimir Putin não dê passos concretos para aliviar a tensão regional. Da Casa Branca saiu a condenação de “campanhas organizadas de incitação à sabotagem” no leste da Ucrânia. E o anúncio de uma deslocação do vice-presidente Joe Biden à capital ucraniana, a 22 de abril.
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