Movimento #MeToo inspirou alegada vítima de Ronaldo a quebrar o silêncio

O que têm de comum as acusações de violação, num caso tentada, no outro consumada, contra o juiz Brett Kavanaugh e o futebolista Cristiano Ronaldo? Em ambos os casos, as alegadas vítimas sentiram-se encorajadas a quebrar o silêncio pelo exemplo de muitas outras mulheres, sob o signo do movimento #MeToo.

RTP /
Lucy Nicholson, Reuters

A ex-modelo Kathryn Mayorga, que em 2009 apresentou uma queixa por violação sem identificar o agressor, afirma que se decidiu agora a esse passo perante o exemplo que era dado por muitas outras mulheres sob o signo do movimento "MeToo". E aponta a Cristiano Ronaldo um dedo acusador.

Em 13 de Junho de 2009, Kathryn Mayorga queixou-se numa esquadra da polícia da cidade norte-americana de Las Vegas de ter sido vítima de uma violação anal. Os exames periciais levados a cabo na altura confirmaram a existência de lesões que pareciam confirmar a queixa de Mayorga.

Mas a ex-modelo não identificou o alegado violador, porque, segundo agora afirma, os advogados de Cristiano Ronaldo na altura lhe ofereceram a quantia de 375 000 dólares para guardar silêncio.

Agora, reviu essa decisão que diz ter sido tomada em momento de grande fragilidade psicológica e sob o efeito do trauma profundo que lhe causou a violação. Entretanto, uma nova equipa de advogados explicou-lhe que qualquer acordo para ocultar um crime constitui, ele próprio, um crime de obstrução de justiça e é, para todos os efeitos, nulo no que diz respeito a obrigar uma vítima a calar-se.

Segundo o diário suíço Neue Zürcher Zeitung, Mayorga decidiu-se a falar sob o efeito deste novo aconselhamento jurídico, e também sob o efeito inspirador do movimento #MeToo, que tem encorajado as vítimas de agressões sexuais a virem a público denunciar os agressores.

Ao falar, em declarações prestadas a Der Spiegel por intermédio de um advogado, Mayorga identificou Cristiano Ronaldo como o violador dessa noite de junho de 2009.

O jogador confirmou ter tido relações com a ex-modelo em 2009, mas negou que tenha havido violação. Num vídeo de Instagram, afirma que se trata de fake news e que considera normal que alguém queira tornar-se famosa com o seu nome.

Por outro lado, o advogado alemão de Ronaldo, Christian Schertz, anunciou que processaria Der Spiegel. O jornalista que levou a cabo a investigação de Der Spiegel respondeu, explicando como verificara os factos enumerados no artigo.

Em todo o caso, segundo Der Spiegel a polícia de Las Vegas, Estado do Nevada, considerou as alegações suficientemente credíveis para abrir uma investigação sobre o caso. Para além do crime de violação, que poderá ser imputado, ou não, a Ronaldo, pode haver a este nível um processo pelo crime de obstrução de justiça, em que os seus advogados de então seriam potenciais arguidos.

Se a Justiça do Estado de Nevada vier a arguir Ronaldo do crime de violação, irá abrir um processo-crime, ao qual corresponde nesse Estado uma moldura penal de prisão perpétua.

Para já, a polícia não comenta se chegou a algumas conclusões preliminares, e quais, pelo que é impossível saber se abrirá o processo-crime contra o jogador.

O que seguramente vai existir, é um processo cível, em que os advogados de Mayorga reclamam de Ronaldo uma indemnização de 50.000 dólares para a sua cliente.

Der Spiegel tornou públicas as alegações do advogado de Kathrin Mayorga contra Cristiano Ronaldo, um documento com 32 páginas.



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