Movimento Sem Terra rompe com Governo Lula da Silva
Rio de Janeiro, Brasil, 21 Jan (Lusa) - O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que apoiou abertamente a eleição de Lula da Silva e esta semana celebra 25 anos de existência, critica a política do Governo brasileiro e reconhece que o modelo de reforma agrária está esgotado.
Segundo um dos líderes do movimento, João Paulo Rodrigues, o Presidente Lula da Silva "se diz aliado dos sem terra, mas também se diz aliado dos ruralistas, ou seja, ele é amigo dos nossos inimigos".
Rodrigues disse à imprensa em vésperas do 13º Encontro Nacional do MST, que se iniciou na terça-feira no Rio Grande do Sul para celebrar os 25 anos da organização, que "Lula é aliado dos ruralistas e do agronegócio e não dos sem terra".
Ainda de acordo com o líder da organização, apesar de o Governo Lula não ter criminalizado o movimento, "não representou na prática melhores condições dos assentados ou um número maior de assentados como se previu".
O porta-voz do MST no Rio Grande Sul, Cedenir de Oliveira, não admite o fim das relações com o Partido dos Trabalhadores (PT), no entanto disse à Lusa que o Movimento, por ser uma organização autónoma sob gestão colectiva, "se posiciona independente dos governos".
"Uma coisa é o partido, outra é o Governo. Com o PT nós mantemos relações políticas". Segundo este porta-voz, "a expectativa era grande", com a posse de Lula, de que estabelecesse um processo de reforma agrária mais ampla.
"Mas o Governo aderiu o modelo do agronegócio baseado na monocultura, no capital internacional e de alta tecnologia. E este é um modelo contrário ao que pensamos", disse Oliveira ao realçar que actualmente a reforma agrária "saiu da pauta política" do Governo brasileiro.
Oliveira admite que o modelo de reforma agrária no Brasil, formulado na década de 1980, adquiriu outras dimensões.
"A reforma agrária clássica dos anos 80 se esgotou. Ao longo desses 25 anos houve grandes mudanças significativas nas relações sociais no campo brasileiro. Hoje o principal inimigo não são mais os grandes latifúndios improdutivos, são os grupos económicos que produzem matéria-prima voltada para exportação", referiu, ao citar a plantação de eucalipto, cana-de-açúcar e soja.
Pela primeira vez, desde 2003, a equipa do Governo Lula não foi convidada para participar do encontro do Movimento Sem Terra.
O evento, iniciado na noite de terça-feira, decorre até 24 de Janeiro e deverá reunir 1.500 integrantes do Movimento, que tem representação em 24 estados brasileiros.
A festa da comemoração dos 25 anos será realizada na noite de encerramento na Fazenda Anonni, em Sarandi no Rio Grande do Sul, considerada como um símbolo do surgimento do MST em 1984.
O último dia do encontro contará com a presença de militantes, além de personalidades e autoridades como os governadores Roberto Requião, do Paraná (do Partido do Movimento Democrático Brasileiro - PMDB) e Jackson Lago, do Maranhão (do Partido Democrático Trabalhista - PDT).
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