Mubarak gora expectativas e diz que não sai

A tensão voltou a aumentar no Cairo depois de Hosni Mubarak ter reafirmado que não tenciona demitir-se. O discurso presidencial de ontem caiu como um balde de água fria entre os milhares de manifestantes, que, ao longo do dia, tinham visto crescer as expectativas com as declarações de responsáveis civis e militares de que estaria iminente a satisfação das suas reivindicações.

António Carneiro, RTP /

Ao princípio da tarde de ontem o supremo conselho militar disse estar iminente “uma declaração importante” e o chefe do partido do poder, afirmou “esperar” que Hosni Mubarak anunciasse nesse mesma noite que iria delegar os seus poderes.

“O Presidente vai fazer um anúncio que dará grande alegria ao povo” e “todas as vossos desejos vão ser satisfeitos” foram algumas das frases que se foram ouvindo ao longo do dia de ontem, por parte de altos responsáveis do regime egípcio.

Paralelamente o exército egípcio vaio a público com uma declaração críptica, em que dizia “estar a tomar todas as medidas necessárias com vista a “preservar a nação” , sem dar mais pormenores sobre o que isso significava.

Alguns observadores viram aí sinais de que estaria em marcha um golpe militar ou de que as forças armadas teriam tomado uma posição que forçaria o líder egípcio a demitir-se.

Euforia frustradaEsperando assistir à queda de Mubarak, multidões eufóricas convergiram para a praça Tahrir, no centro do Cairo, onde se situa o coração dos protestos contra o regime.

Cantavam, “o povo e as forças armadas estão unidos“e “O regime caiu, o povo fez o regime cair”.

A atmosfera na praça alterou-se radicalmente, quando começou o discurso presidencial.

Mubarak falou sim, mas para criticar as posições dos que no estrangeiro têm vindo a apelar à sua abdicação. Referindo-se, quase certamente, aos Estados Unidos, garantiu que não cederá a “ordens” ditadas do exterior.

O líder egípcio afirmou ainda que iria passar alguns dos seus poderes ao vice-presidente Omar Suleiman, que também é chefe dos serviços secretos, mas voltou a afirmar que só sairá da presidência quando entregar o poder a quem ganhar as eleições marcadas para setembro.

Multidão reage mostrando os sapatos Dirigindo-se aos jovens manifestantes disse que “o sangue dos vossos mártires não foi em vão”, lembrando que ordenou um inquérito aos incidentes violentos que causaram centenas de vítimas no Cairo.

Falou ainda das reformas que disse querer implementar nos meses em que tenciona permanecer no poder.

A multidão reagiu com incredulidade ao ver goradas as esperanças de uma demissão imediata de Mubarak.

À incredulidade e choque iniciais, seguiu-se a revolta e a fúria. Muitos seguravam a cabeça entre as mãos à medida que iam ouvindo a mensagem presidencial, alguns choravam, outros brandiam no ar os sapatos, num gesto de insulto, enquanto entoavam a palavra de ordem “Sai! Sai! Sai!” .

ElBaradei: "O Egito vai explodir"Cerca de 2000 manifestantes marcharam até à televisão pública, a alguns quarteirões de distância, onde por detrás de rolos de arame farpado, alguns soldados montavam guarda.

“São todos mentirosos” diziam, apontando para o edifício, “Nós não vamos sair, eles vão sair!”.

O destacado oposicionista Mohamed ElBaradei avisava numa mensagem no Twitter: “O Egito vai explodir”.

Esta manhã dezenas de milhares de pessoas voltaram a concentrar-se no centro do Cairo, para exigir a partida do presidente. Espera-se que com o final das orações de sexta-feira, após a saída das mesquitas, as multidões venham a engrossar. Muitos dizem esperar abertamente que o exército tome agora a iniciativa de depor Mubarak.

De momento há poucos sinais de que esse cenário esteja iminente. Numa declaração feita já hoje, os comandos militares avisaram contra qualquer tentativa de pôr em causa a segurança do Egito, ao mesmo tempo que reconheciam a transferência parcial de poderes do Presidente para o vice-presidente.

Na mesma altura, prometeram ao povo que serão o garante de eleições “livres e justas”.

Desalento na Casa Branca
Os últimos desenvolvimentos vieram lançar a confusão, não só entre os egípcios, como no estrangeiro.

Nos Estados Unidos, onde o diretor da CIA dizia ontem ao Congresso “haver uma forte possibilidade de Mubarak se demitir” nessa mesma noite, o presidente Barack Obama criticou a “falta de clareza e de decisão” do líder egípcio.

Numa declaração escrita em que não citava diretamente o nome de Mubarak, Obama, questionava-se também se a transferência de poderes prometida teria alguma credibilidade ou significado.

França distancia-se dos EUAMais cauteloso, o Governo françês, através da ministra dos Negócios Estrangeiros, Michéle Alliot Marie, propôs que a França acompanhe o Egito neste período de transição, ao mesmo tempo que criticou as pressões feitas pelos EUA.

Lembrando que a França tinha “apelado a um processo de transição político e sereno”, a ministra sublinhou que o Presidente Mubarak tinha transferido grande parte dos seus poderes.

Quanto aos apelos implícitos de uma demissão imediata, Alliot-Marie afirmou que é necessário “mostrar respeito “. “É uma característica da França e da sua política externa”, disse a responsável, “não temos de ser nós a decidir em lugar dos povos”, afirmou.

“A democracia, o respeito pelos outros, não significa dizer ‘eis aqui quem vos deve dirigir’, ou ‘é assim que se deve fazer’ “ insistiu a responsável pela diplomacia gaulesa.

Quando interrogada sobre se era isso que os americanos estavam a fazer, Michéle Alliot-Marie respondeu “Pelo menos é assim que é interpretado em alguns países”.

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