Mulher do Tennessee no corredor da morte levada para o hospital depois de sobreviver a duas injeções letais

Mulher do Tennessee no corredor da morte levada para o hospital depois de sobreviver a duas injeções letais

Christa Pike, condenada à morte pelo homicídio cometido em 1995, foi ouvida a ressonar 40 minutos após a administração das doses letais, segundo testemunhas.

Cristina Sambado - RTP / Adicionar como fonte informativa
Christa Pike, a 4 de dezembro de 2007, no Tribunal Criminal do Condado de Knox, em Knoxville, Tennessee Foto: J. Miles Cary/Knoxville News Sentinel/Usa Today Network via Reuters

As autoridades do Tennessee não conseguiram concretizar a execução de Christa Pike, apesar de esta ter recebido duas doses da substância para injeção letal, informaram os seus advogados, acrescentando que foi levada para o hospital de ambulância.

Pike permaneceu acordada, falou e cantou com o guia espiritual, após o início da administração do fármaco e, após a primeira dose, continuou a mover-se e a respirar de forma audível.

Os advogados declararam a uma estação de notícias local que "isto transformou-se em agonia e numa violação do direito de Pike de ser executada sem sofrer uma punição cruel e invulgar".

O Departamento de Correções do Tennessee confirmou posteriormente que Pike sobreviveu à tentativa do Estado de a executar, afirmando que "a substância química de injeção letal prevista no protocolo tem-se mostrado consistentemente eficaz, e o protocolo não prevê procedimentos adicionais para além dos realizados esta noite".

"Christa Pike foi transportada para uma unidade médica externa", concluiu o comunicado.
O estado de saúde de Pike após a provação não foi divulgado de imediato, e não ficou claro que medidas legais os advogados ou o Estado poderiam adotar a seguir, depois de ter sido levada para tratamento médico fora da Penitenciária de Segurança Máxima de Riverbend, em Nashville.

Numa conferência de imprensa, jornalistas presentes como testemunhas relataram ter ouvido Pike ressonar 40 minutos após a administração de duas doses de pentobarbital.

Tribunal de recurso suspende e supremo revoga
Pike, de 50 anos, tinha uma execução marcada para as 10h00 de quarta-feira, referente a um homicídio cometido quando tinha 18 anos; seria a primeira mulher executada no Tennessee em mais de 200 anos.  Um tribunal de recurso suspendeu a injeção letal apenas uma hora antes da hora prevista para o início, mas, horas depois, o Supremo Tribunal dos EUA revogou essa suspensão.

Os advogados de Pike apresentaram um pedido de emergência ao Supremo Tribunal dos EUA solicitando a interrupção e o adiamento da execução, alegando que ela estava em "agonia desnecessária" e que o Estado estava a violar o seu direito de ser executada sem sofrer uma punição cruel e invulgar.

Sete jornalistas que estavam na sala para acompanhar a execução relataram posteriormente, numa transmissão em direto da estação de TV WVLT, que, após a injeção, Pike estava claramente viva e a ressonar antes de as autoridades prisionais os retirarem do local.

“Ao que parece, as coisas não ocorreram como deveriam”, disse o jornalista de investigação John North, da estação WBIR, que testemunhou a situação no local da execução, acrescentando: “quando saímos do edifício, tanto quanto sabíamos, ela provavelmente ainda estava viva”.

Antes, a execução de Pike — condenada por homicídio há 30 anos — tinha sido suspensa por um tribunal de recurso numa decisão tomada por dois votos a um; o tribunal alegou que o adiamento era necessário para avaliar se as alegações de Pike sobre abuso sexual na infância tinham sido devidamente consideradas aquando da sua sentença. O governador do Estado e o Supremo Tribunal já tinham rejeitado anteriormente os pedidos de clemência.

O procurador-geral do Tennessee recorreu imediatamente da decisão para o Supremo Tribunal, argumentando que a suspensão de última hora recompensava “táticas abusivas de protelação por parte dos advogados de Pike”, segundo a Associated Press.
Governador do Tennessee suspende execuções em 2026
O governador do Tennessee suspendeu as execuções ainda previstas para este ano no Estado e ordenou a abertura de uma investigação após a tentativa falhada de executar uma condenada, segundo comunicado a vários órgãos de imprensa norte-americanos.

De acordo com o Centro de Informação sobre a Pena de Morte, estava prevista no Tennessee a execução de Gary Wayne Sutton no próximo dia 3 de dezembro."A aplicação de uma pena legalmente imposta está entre as responsabilidades mais graves do Estado, e os habitantes do Tennessee esperam que seja realizada de forma (...) eficaz", justificou Bill Lee, que anunciou uma investigação, a ser conduzida por terceiros, sobre as circunstâncias do fracasso na execução de Christa Pike.

Para o governador, cumprir as sentenças impostas legalmente está entre as responsabilidades mais importantes do Estado, e o povo do Tennessee espera que isso seja feito não só de forma legal e constitucional, mas também eficaz. Três décadas no corredor da morte
Pike tinha 18 anos quando ela e o namorado, então com 17 anos, mataram Colleen Slemmer, de 19 anos — uma colega de turma do programa Knoxville Job Corps —, em 1995.

O caso ganhou destaque nacional devido à idade dos envolvidos e à brutalidade do homicídio. 
Segundo a acusação, Pike temia que Slemmer estivesse a tentar tirar-lhe o seu então namorado, Tadaryl Shipp.

Juntos, atraíram Slemmer para uma zona arborizada atrás da central de vapor do campus de agricultura da Universidade do Tennessee, a 12 de janeiro de 1995. Pike cortou o estômago e a garganta de Slemmer com um estilete antes de lhe esmagar a cabeça com uma pedra.

Shipp gravou um pentagrama no peito de Slemmer e Pike mostrou mais tarde a um amigo um fragmento do crânio da vítima. Shipp foi condenado por homicídio em primeiro grau em 1997 e condenado a prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional.

Pike nunca negou o seu envolvimento na morte de Slemmer e foi posteriormente diagnosticada com doença bipolar e perturbação de stress pós-traumático.


“Eu era uma jovem de 18 anos com problemas mentais. Levei muitos anos até mesmo para compreender a gravidade do que havia feito. E ainda mais tempo para aceitar quantas vidas afetara. Tirei a vida de alguém que era filha, irmã e amiga. Sinto um mal-estar profundo ao pensar que fui capaz de cometer tal crime”, disse Pike numa declaração incluída no seu pedido de clemência.

No sábado, May Martinez, mãe de Slemmer, disse que aguardava a execução de Pike.

“Sempre que penso nisso, imagino a Colleen a sentir aquela dor e a tentar levantar-se e fugir”, disse Martinez à Associated Press, acrescentando: “Não passa um dia, nem um minuto, sem que eu pense na Colleen. As datas comemorativas são as piores”.
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