Mulheres e raparigas são principais vítimas da crise de água e saneamento

Sete em cada dez agregados familiares no mundo não têm acesso a água potável. E são as mulheres e as raparigas que carregam o peso da crise da água e do saneamento, revela o relatório conjunto da UNICEF e da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado esta quinta-feira.

Rachel Mestre Mesquita - RTP /
Sima Gul está feliz por ter água potável segura na aldeia de Kani Noorbakhil, distrito de Spera, província de Khost, Afeganistão (2023). Sayed Bidel - UNICEF | © UNICEF/UNI398362/Bidel

Segundo o novo relatório publicado pela UNICEF e pela OMS, é mais provável que as mulheres sejam responsáveis por ir buscar água para o agregado familiar e as raparigas tenham quase o dobro da probabilidade de assumir esta responsabilidade em relação aos rapazes.

Pela primeira vez, o relatório que compila dados sobre o progresso global para se conseguir o acesso universal à água potável segura, ao saneamento e à higiene (WASH) destaca as desigualdades de género, de que as mulheres e raparigas são alvo. Oportunidades mais limitadas

"Cada passo que uma rapariga dá para ir buscar água é um passo que a afasta da aprendizagem, de brincar e de estar em segurança"
, afirma Cecilia Sharp, diretora da UNICEF para WASH e CEED (Clima, Energia, Ambiente e Redução de Risco de Desastres). A falta de acesso à água potável e saneamento “priva as raparigas de acederem ao seu potencial, compromete o seu bem-estar e perpetua os ciclos de pobreza”, acrescenta.

O relatório conclui igualmente que na maior parte dos casos, as mulheres e as raparigas percorrem deslocações mais longas para acederem a água potável, expondo-as a situações de vulnerabilidade e risco durante o caminho. Inquéritos recentes em 22 países mostram que, entre os agregados familiares com casas de banho partilhadas, as mulheres e raparigas são mais propensas do que os homens e os rapazes a sentirem-se inseguras e vítimas de assédio sexual.

A questão da dificuldade em assegurar a água que é necessária diariamente a estas famílias é o mote de um vídeo que a UNICEF tem estado a passar nas redes sociais.

 
Saúde e higiene menstrual

“Todos os anos morrem 1,4 milhões de pessoas devido à falta água e às condições inadequadas de higiene e saneamento"
, afirmou Maria Neira, diretora do Departamento do Ambiente, Alterações Climáticas e Saúde da OMS.

Devido ao acesso inadequado a água potável e saneamento, a população feminina enfrenta mais riscos de saúde e sente desproporcionalmente o impacto da falta de higiene, nomeadamente na dificuldade em gerir os seus ciclos menstruais de forma segura e com privacidade. “Não só enfrentam doenças infeciosas relacionadas com o WASH, como a diarreia e as infeções respiratórias agudas, como também enfrentam riscos adicionais para a saúde porque estão vulneráveis ao assédio, à violência e aos acidentes” de que podem ser vítimas, explica Neira.
Progressos no alcance do ODS 6

Entre 2015 e 2022, registaram-se alguns progressos no sentido de se alcançar o acesso universal ao WASH, o relatório mostra que o acesso das famílias à água potável gerida com segurança aumentou de 69% para 73%, o saneamento gerido com segurança passou de 49% para 57%, e os serviços básicos de higiene aumentaram de 67% para 75%.

No entanto, para alcançar a meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 até 2030, será necessário maior progresso em cada indicador e mais esforços para garantir que os progressos relativos ao WASH contribuam para a igualdade de género, permitindo ações específicas que respondam às necessidades particulares das mulheres e raparigas.
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