Mulheres entre o milagre da maternidade e o inferno das violações
Muassite Miguel presta assistência humanitária às mulheres deslocadas pela violência em Cabo Delgado, norte de Moçambique, e confessa que fica em choque quando as ouve.
"Os malfeitores entram [nas aldeias] e violam" as mulheres, que por vezes conseguem escapar ou ser libertadas, mas que também acabam mortas, conta a coordenadora de campo da Fundação para Desenvolvimento da Comunidade (FDC), uma organização não-governamental (ONG) moçambicana.
As equipas que gerem o espaço seguro da mulher nos campos de acolhimento de deslocados dão-lhes um sítio afastado da família e de homens para que possam deitar cá para fora tudo o que as atormenta, sem medo de humilhações ou outras consequências.
E assim as histórias vêm à tona: "as minhas colegas já estão a reportar casos", conta Muassite.
De cor, recita os relatos de violações registados nos diferentes campos de acolhimento, só no mês de fevereiro: 10 em Metuge, oito em Chiure e cinco em Mecufi - além dos relatos de outro tipo de abusos.
"A primeira reação é de choque. E para sair desse choque e encorajar a mulher, [quem apoia] tem de se acalmar por dentro", relata, com base na sua experiência pessoal.
Sempre que um caso de violação ou abuso é relatado, é encaminhado para a autoridade competente, para devido acompanhamento.
Há números do que vem à luz do dia, mas muitas experiências ficam fechadas e é essa tendência que a FDC e outras organizações humanitárias, dedicadas à proteção da mulher, querem travar.
A estratégia criada pretende promover confiança, de modo que as vítimas possam relatar aquilo que perante outros talvez nunca dissessem.
É importante as mulheres contarem o que se passou, "senão, vão viver com um trauma por muto tempo", um trauma que "podem nem suportar".
"Podem nem viver muito tempo" ao guardar algo que as "consome em tristeza".
Mesmo fora dos campos de acolhimento, ou seja, em cidades como Pemba em que os deslocados são acolhidas em casas de família e amigos, há grupos de apoio que funcionam, mas aí é mais difícil que as mulheres contem as suas histórias.
O espaço seguro da mulher é o que mais promove o desabafo, diz a coordenadora de campo da FDC.
Hoje, Muassite Miguel passa os olhos pelo resto da sua equipa em frente ao Aeroporto de Pemba, capital provincial de Cabo Delgado.
Alinhados, estão dezenas de `kits` de dignidade para entregar às mulheres que ali chegam, resgatadas em voos humanitários da península de Afungi, após o ataque de há uma semana à vila de Palma, junto aos projetos de gás do norte do país.
Cada `kit` inclui duas capulanas, máscaras, itens de higiene e até um apito, para que uma mulher "possa pedir socorro quando não tem condições de falar".
"Sabemos que as pessoas foram violadas psicologicamente, fisicamente e patrimonialmente. Muita coisa aconteceu e estamos a tentar devolver a dignidade e construir resiliências" junto das mulheres, um trabalho que já estava em curso nos campos de acolhimento de deslocados.
A violência na província já dura há três anos e meio, o número de deslocados chega a 700.000 e a maioria são mulheres e crianças.
Os deslocados do ataque a Palma seguem o mesmo perfil.
A maioria dos deslocados que chegam à capital provincial "são grávidas e mulheres com bebés no colo".
"É um milagre de deus" sobreviverem vários dias no mato e à fome, até serem resgatadas, diz Muassite, recordando o caso do bebé que nasceu durante a fuga.
"No primeiro dia, a mulher, grávida, percorreu o caminho, no segundo dia deu-se o parto. Para chegar aqui com o bebé ao colo, é um milagre".