Mulheres na região Ásia Pacífico sub-representadas no domínio científico
A ONU disse à Lusa que as mulheres na região Ásia Pacífico continuam "significativamente sub-representadas" no domínio científico, com a perda de interesse a acontecer, muitas vezes, no início do percurso escolar.
Quando Xu Yi estudava na faculdade, apenas cinco dos 50 alunos na sala de aula eram mulheres. Hoje, no laboratório onde trabalha, em Macau, os números não são muito diferentes: cinco mulheres num universo de 40 cientistas.
"Cresci a ouvir os professores a desencorajarem as raparigas de frequentarem cursos na área STEM [acrónimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática]", lembra a cientista do Laboratório de Referência do Estado para a Ciência Lunar e Planetária, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.
Quando disciplinas como a Física e a Matemática se tornavam mais difíceis, os professores repetiam que "as mulheres não eram tão boas como os homens", recorda agora Xu Yi, que nasceu e cresceu na China continental.
As mulheres continuam "significativamente sub-representadas" no domínio STEM na região Ásia Pacífico. O mundo laboral nesta área "mantém-se dominado por homens, excludente e inflexível", referiu à Lusa numa resposta por email a ONU Mulheres da região.
Trata-se de "um problema frequente", declarou a organização, por ocasião do Dia Internacional da Mulher (08 de março) e do 25.º aniversário da Resolução 1325 do Conselho de Segurança, assinada em 2000 pela promoção da igualdade de género e dos direitos das mulheres.
Uma investigação nas Filipinas de 2022, nota ainda a ONU Mulheres, declara que os preconceitos de género começam cedo, com as alunas a perderem o interesse nesta área científica logo aos dez anos de idade, por acreditarem que é uma pasta masculina.
Este ano assinala-se ainda o 30.º aniversário da histórica Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, um documento adotado na conferência mundial das Nações Unidas sobre as Mulheres, realizada na capital chinesa, em setembro de 1995, no qual os governos se comprometeram a garantir que a igualdade entre sexos se vai refletir nas políticas.
Mas Xu Yi, que estudou nos Estados Unidos Física, Microeletrónica e Engenharia Eletrónica e Informática, tem sentido na pele o preconceito.
"No domínio STEM, a maioria dos colegas à nossa volta são homens, que não pensam em cooperar connosco, só depois de termos no currículo algumas conquistas e de as pessoas nos aprovarem", conta.
Dados da ONU Mulheres Ásia Pacífico de 2022 apontam que, globalmente, as mulheres representam 35% dos estudantes nos cursos STEM e apenas 3% dos estudantes na área da Tecnologias de Informação e da Comunicação. No local de trabalho, 19,9% dos profissionais de Ciências e Engenharia são do sexo feminino.
Apesar do aumento de inscritas no ensino superior nesta área, "preconceitos persistentes e normas de género continuam a afastar as mulheres das carreiras STEM", declara a ONU.
A Lusa verificou, porém, que num outro laboratório de Estado em Macau já se conquistou um equilíbrio.
A académica e cientista Li Ting, do Laboratório de Referência do Estado para Investigação de Qualidade em Medicina Chinesa, da Universidade de Macau, diz que seleciona intencionalmente os estudantes consoante o género. E escolhe o equilíbrio.
"Depois de dar à luz, como mãe, a pressão é significativa, e penso que esta é uma das maiores reviravoltas na carreira de todas as mulheres", analisa.
Também a cientista Betty Law-Yuen Kwan, natural de Hong Kong e a trabalhar no mesmo laboratório, explica que, quando estava no secundário, um terço das colegas mulheres optou pela área científica. "Acolho metade rapazes e metade raparigas, penso que se podem complementar", diz.
Apesar deste exemplo, na liderança dos dois laboratórios referidos estão inscritos apenas nomes masculinos. E essa realidade "desincentiva a participação" das mulheres na área, de acordo com a ONU Mulheres para a região da Ásia Pacífico.
"Por isso, os programas de mentoria são cruciais", afirma.
Em 2023, a ONU deixou críticas à sub-representação das mulheres em cargos de topo na Administração Pública e empresas privadas de Macau.
O Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas "continua preocupado com as informações de que os estereótipos de género persistem e que a representação das mulheres em cargos superiores na Administração Pública e nas empresas privadas continua insatisfatória".
Os cargos mais importantes do atual Governo de Macau, por exemplo, são ocupados por cinco homens (chefe de Governo, secretários para a Economia e Finanças, Administração e Justiça, Economia, Transportes e Obras Públicas), e uma mulher (Assuntos Sociais e Cultura).
No mundo laboral, 41% dos cargos de liderança estavam em 2022 nas mãos de mulheres, de acordo com estatísticas do Instituto de Ação Social de Macau (IAS).
Entre 2014 e 2023, o rendimento médio mensal de trabalho das mulheres foi inferior ao dos homens locais em cerca de 5% a 10%, ainda segundo o IAS.