Muro em Chipre indigna gregos e surpreende turcos

A construção de um muro na Linha Verde que separa Chipre está a causar indignação à comunidade local grega e surpresa à turca, inconformada com o lixo amontoado há 30 anos na divisória na ilha.

Agência LUSA /

O Comando das Forças de Segurança (GKK) da República Turca de Chipre do Norte (RTCN) - auto-proclamada em 1983 (na sequência da invasão militar turca do terço norte insular em 1974), mas só reconhecida por Ancara e sob bloqueio internacional - anunciou recentemente, em comunicado, a intenção de construir até Outubro, ao longo da Linha Verde, um muro com dois metros de altura e vários quilómetros de extensão.

Este muro visaria, alegadamente, substituir o lixo acumulado em mais de três décadas numa divisória feita de amontoados de barris, faixas de pano, bocados de arame farpado e outros desperdícios, deixando o ambiente mais limpo.

Em Nicósia, o porta-voz do governo cipriota-grego (República de Chipre), Kypros Chrysostomides, citado pela agência AFP declarou aos jornalistas não ter qualquer prova da construção do polémico muro, a fazer lembrar o que está a ser levantado por Israel.

"A construção desse muro seria uma ilegalidade para reforçar a divisão" de Chipre, afirmou Chrysostomides.

Mais dura foi a posição de Averof Neophytou, vice-presidente do partido de oposição cipriota-grego Disy, segundo o qual as ambições europeístas de Ancara ficarão goradas "se construir um muro no meio de um país comunitário". Nicósia é, em todo o mundo, a única capital dividida.

+Em Lefkosha, o lado cipriota-turco de Nicósia, capital da RTCN, Huseyin Ozel, da equipa do Presidente Mehmet Ali Talat, em declarações à Agência Lusa não escondeu a sua surpresa por esta iniciativa, que garantiu desconhecer.

Ozel realçou que todo o lixo está a ser removido ao longo da Linha Verde por decisão das autoridades cipriotas-turcas, mas nada mais. Quanto à construção de um muro, admitiu que isso "seria desastroso" do ponto de vista político.

A Turquia mantém mais de 30.000 militares estacionados na ilha, onde a força de interposição das Nações Unidas (INFICYP) integra cerca de 1.600 efectivos.

A reunificação cipriota ficou comprometida a 24 de Abril de 2004 com o fracasso do plano do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, "chumbado" em referendo pela comunidade cipriota-grega, embora sufragado pela maioria dos cipriotas-turcos. Em consequência, só a República de Chipre aderiu à União Europeia a 01 de Maio daquele ano.

A Turquia, oficialmente candidata à adesão à UE desde a Cimeira de Helsínquia (Dezembro de 1999), deverá iniciar as negociações a 03 de Outubro próximo. Até lá, poderá ter de reconhecer a República de Chipre.

JHM.


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