Museu da Cisjordânia hospeda Picasso num vislumbre do futuro

A International Academy of Art-Palestine de Ramallah tem numa das suas salas um quadro de Pablo Picasso, cedido pelo museu holandês Dutch Van Abbemuseum. Após uma odisseia que durou dois anos, o “Busto de Mulher”, tela de 105 por 86 cm avaliada em 7,1 milhões de dólares, chegou ao seu destino na Cisjordânia para manter aceso o sonho do Estado Palestiniano como uma situação perfeitamente normal.

RTP /
Para os palestinianos, os 5 kg da obra de Picasso passarão a ter um peso extraordinariamente maior na sua construção como povo livre e aspirante a um Estado soberano DR

O empréstimo holandês forjou-se na cabeça de Khaled Hourani, diretor artístico da academia palestiniana, e a ideia era uma: a luta de um povo por “uma certa normalidade”, ainda que sob ocupação. O quadro do mestre maiorquino é a primeira obra-prima europeia a ser exposta na Cisjordânia.

“A ideia começou como uma brincadeira, eu estava a perguntar: 'Porque é que um Picasso não devia ir até à Palestina? Porque é que a Palestina não pode ser como outro país qualquer que Picasso pode visitar?'”, afirmou Hourani, acrescentando que a escolha de Picasso não foi casual nem unicamente orientada pelo seu estatuto na história da arte, antes incidiu sobre o pintor espanhol pela consciência política que revelou em vida (por ex. com o “Guernica”, sobre a guerra civil espanhola).

E inevitavelmente a viagem deste quadro foi um lembrete das contingências que todos os dias enfrentam os palestinianos: desde que saiu da Holanda, “O Busto de Mulher” teve de ultrapassar protocolos, foi escrutinado à vista dos acordos de paz, e finalmente submetido a um itinerário de postos de controlo desde o aeroporto israelita de Ben Gurion até à fronteira palestiniana. Indo além da própria arte, o quadro passará no futuro a contar uma história que indelevelmente fará parte da moldura e do vidro que o protegem, um ponto de fuga que aponta para questões políticas e militares.

Para os palestinianos, no futuro, os 5 kg da obra de Picasso passarão a ter um peso extraordinariamente maior na sua construção como povo livre e aspirante a um Estado soberano: “Nós agimos como se estivéssemos a trazer Picasso normalmente, como se fôssemos um Estado”, explica Hourani.

Mas isso não aconteceu, e serve também para denunciar as condições impostas por Telavive aos vizinhos palestinianos. Desde logo, o quadro acabaria por atravessar o território israelita à custa de favores pontuais nos postos de controlo. Não menos elucidativo dos constrangimentos que cercam a liberdade daquele povo seria a questão da seguradora. Depois de enfrentar uma recusa, o quadro seria segurado por uma companhia mais habituada a lidar com seguros de pescado, em concreto atum.

Iniciada a rota desde a Holanda até Ramallah, a capital dos territórios, não foi um estatuto de exceção aquele que foi concedido á obra de Picasso. Antes, sobre os ombros do busto de mulher cairia o peso da burocracia israelita, a desconfiança que pode ditar inspeções, toda a espécie de fatores que impedem a livre circulação. Neste caso, a circulação da arte, das ideias, dos ideais.

Talvez por isso a essência deste projeto possa ser resumida numa última declaração de Khaled Hourani: “O que deve ser normal é poder trazer Picasso [à Palestina]. O que deve acabar é a ocupação”.
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