Myanmar expulsa diplomata de Timor-Leste devido a processo contra junta militar

Myanmar expulsa diplomata de Timor-Leste devido a processo contra junta militar

A junta militar de Myanmar (antiga Birmânia) expulsou um diplomata de Timor-Leste após um tribunal de Díli ter aceite uma queixa-crime por alegados crimes de guerra e contra a humanidade, foi hoje anunciado.

Lusa /
Reuters

De acordo com um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Myanmar, a diplomacia birmanesa convocou o encarregado de negócios da Embaixada de Timor-Leste, Elísio do Rosário de Sousa, na sexta-feira.

O comunicado, publicado hoje pelo jornal The Global New Light of Myanmar, refere que as autoridades ordenaram a Sousa, o diplomata de mais alto nível enviado por Díli, que abandonasse o país até 20 de fevereiro.

O ministério descreveu ainda o encontro de janeiro entre o Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, e os representantes da Organização dos Direitos Humanos de Chin (CHRO, na sigla em inglês) como dececionante.

Em 03 de fevereiro, a CHRO - que representa a minoria de Chin, que vive no noroeste de Myanmar, junto à fronteira com a Índia e o Bangladesh - anunciou que o Ministério Público de Timor-Leste tinha iniciado um processo legal contra a junta militar.

"Saudamos esta iniciativa e aguardamos com expectativa a colaboração com as autoridades timorenses, bem como com os grupos da sociedade civil em Timor-Leste, para a promoção da justiça para o povo Chin e para todos os povos de Myanmar", afirmou o diretor da CHRO, Salai Za Uk.

A organização tinha apresentado, duas semanas antes, no Ministério Público de Timor-Leste uma queixa-crime contra um grupo de militares daquele país por crimes de guerra e contra a humanidade.

Esta foi a primeira vez que um membro da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês) inicia uma ação deste tipo contra um Estado-membro da própria organização.

Um tribunal na Argentina está também a analisar um outro processo contra a junta militar pelo alegado envolvimento em genocídio e outros crimes contra a humanidade contra a minoria muçulmana rohingya, apresentado por uma outra ONG.

Tanto Timor-Leste como o Myanmar são membros da ASEAN, organização que suspendeu a antiga Birmânia, na sequência do golpe de fevereiro de 2021, quando os militares derrubaram o Governo liderado por Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, e mergulharam o país numa guerra civil.

Dados divulgados pela Organização dos Direitos Humanos do Estado de Chin referem que a junta militar realizou mais de mil ataques aéreos naquela região, que provocaram a morte a 478 civis, incluindo 91 mulheres e 79 crianças, e destruíram dezenas de unidades de saúde, escolas e edifícios religiosos.

Segundo a ONU, a violência em Myanmar já provocou milhares de mortos e provocou mais de 3,5 milhões de deslocados. Há cerca de 20 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

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