Na Católica de Moçambique fala-se de sida, preservativo e abstinência "e tudo isso é bom"

Beira, Moçambique, 29 nov (Lusa) - Recém-licenciados consideram que uma disciplina obrigatória da Universidade Católica de Moçambique (UCM) sobre sexualidade e prevenção da sida está a ajudar a mudar comportamentos, a começar por eles próprios, mas o caminho tem muitos contras culturais e é ainda longo.

Lusa /

Desde há mais de uma década, cerca de vinte mil alunos de todos os cursos juntam aos seus currículos académicos o conhecimento da prevenção de uma epidemia devastadora em Moçambique, tanto pelos métodos que a ciência recomenda, incluindo o preservativo, como pela doutrina conservadora da Igreja, que sugere abstinência e início da vida sexual mais tardio do que a prática precocemente generalizada no país. No final, desde que consciente, a escolha é de cada um.

Pascoal Diomba, 25 anos, foi um dos alunos a frequentar a disciplina Habilidades de Vida, HIV/Sida, Género e Saúde Sexual e Reprodutiva, que gerou "um movimento muito visível dentro das faculdades", ao ponto e ele próprio ter dirigido um dos núcleos estudantis associados ao programa num dos polos da UCM no centro e norte do país e que se chamava Shalumo (Juntos, na língua maconde).

Em vésperas do Dia Mundial de Luta Contra a Sida, que se assinala a 01 de dezembro, Diomba, formado em Gestão Ambiental e Recursos Naturais, recorda que já existe muita informação na televisão, nas rádios e em ?roadshows`, mas a UCM diferenciou-se pela disciplina obrigatória e condição para transitar de ano.

"Os temas têm uma interpretação científica mas também algum subsídio [contributo] católico", em que tanto se aborda os métodos habituais de prevenção disseminados por Governo e organizações internacionais, como "um sentido de moral religiosa".

O atual gestor de comunicação e campanhas do departamento de HIV (sigla em inglês para vírus de imunodeficiência adquirida) na reitoria da UCM, na cidade da Beira, província de Sofala, lembra que, quando se matriculou no primeiro ano, o debate era aceso e ainda muito focado na mitigação do fator biológico da doença, mas, entre ciência e religião, precisava de mais atenção a aspetos culturais ainda incontroláveis para ambos.

"Por exemplo, os casamentos prematuros, os relacionamentos forçados, porque, em algumas etnias, quando as mulheres nascem, já têm um marido", conta Diomba, "e elas acabam por ser afastadas das escolas e do convívio das pessoas com a mesma idade".

Da disciplina obrigatória, Jessica Ivo, 21 anos, ouviu, como todos, que os métodos contracetivos devem ser usados como prevenção de sida, ou a abstinência, para evitar o que chama de "questões indesejadas que podem atrasar a vida em termos académicos". Mas não foi só isso que aprendeu.

"Foi possível, principalmente para nós meninas em África, aprendermos e decidirmos melhor os nossos direitos, a impor aos homens e rapazes o respeito que nós merecemos", assinala.

Recém-licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais e atual funcionária de apoio à docência na UCM em Quelimane, província da Zambézia, Jessica Ivo destaca que, além da prevenção de sida, na disciplina são igualmente abordados a igualdade de género, saúde sexual reprodutiva e o respeito pela diferença.

Quanto aos rapazes, se alguns deles passarem a respeitar as mulheres e as suas irmãs, "quando agora gozam com elas quando estão menstruadas ou vestem alguma coisa diferente", já se ganhou alguma coisa.

"Como eram obrigados a ouvir, acredito que passaram a entender um pouco mais sobre os constrangimentos e as dúvidas que as meninas têm", refere, e sobretudo "passaram a perceber melhor quando uma rapariga diz não".

Foram estas questões que mobilizaram Catarina Paula de Melo a criar a Associação das Raparigas da Zambézia, depois da aprendizagem recebida na UCM.

Sem dúvida, sentiu uma abordagem religiosa na disciplina obrigatória, mas também que a universidade não se podia afastar da realidade e de uma doença que mantém níveis alarmantes em Moçambique, onde 1,5 milhões de pessoas estão infetadas com o HIV.

"Apesar de ser uma universidade que se baseia em princípios da Igreja Católica, não dista muito, na verdade, do que acontece [na sociedade], e não podemos negar que para termos uma vida melhor é importante usar um preservativo", considera a também recém-licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, acrescentando que a UCM fala de tudo: "Fala do preservativo e dos métodos contracetivos e isso é bom".

Catarina Paula de Melo acha porém que a universidade podia fazer ainda mais e alargar o programa às comunidades, "porque é lá que as pessoas têm falta de informação, é lá que não há energia para usar o televisor que fala de preservativo.

É esse o papel que pretende destinar à sua associação e um foco na educação formal e na transmissão de ferramentas para erradicar casamentos prematuros, gravidezes precoces, desnutrição e mortalidade materno-infantil, ou, em síntese, "o ciclo vicioso da pobreza", todo ele na base da calamidade provocada pela epidemia.

Na Zambézia, descreve, persiste a ideia de que uma mulher que se casa é menos uma boca para alimentar, a que se junta o bónus do lobolo (dote).

"Mas, na verdade, a pobreza vai aumentar, a violência doméstica vai aumentar e a possibilidade de a mulher brilhar e concretizar aquilo que ela sonha e desenvolver o seu país vai diminuir", alerta,

Moçambique é o oitavo país do mundo mais atingido pela epidemia de sida, que convive com outros dramas sociais como os casamentos prematuros, em que metade das raparigas se casa antes dos 18 anos e 14% antes dos 15, e as 20 mil vítimas em três anos de violência doméstica.

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