Nagorno-Karabakh. Confrontos já fizeram pelo menos 39 mortos

por RTP
Melik Baghdasaryan - EPA

Os últimos dados confirmam pelo menos mais 15 soldados separatistas vítimas dos confrontos na região fronteiriça de Nagorno-Karabakh, que começaram no domingo. Em apenas 24 horas, o conflito entre a Arménia e o Azerbaijão já fez 39 mortos.

A tensão voltou ao Cáucaso no fim de semana, após novos confrontos entre a Arménia e o Azerbaijão na região fronteiriça de Nagorno-karabackh.

De acordo com as autoridades do território separatista, citadas pela agência de notícias France Presse (AFP), o número dos seus soldados mortos desde o início dos combates, no domingo, subiu para 32, registando-se ainda a morte de cinco civis do Azerbaijão e dois civis arménios do enclave - uma mulher e uma criança, segundo ativistas dos Direitos Humanos citados pelo Guardian.

O Azerbaijão ainda não anunciou as suas perdas militares, mas a imprensa internacional fala em centenas de feridos em menos de 24 horas, naqueles que são já considerados os confrontos mais violentos desde 2016, quando os confrontos entre os beligerantes provocaram cerca de 100 mortos - já na altura, as hostilidades fizeram recear uma guerra aberta entre o Azerbaijão e a Arménia pelo controlo de Nagorno-Karabakh.

As tensões entre os dois países já vinham a aumentar há meses no enclave legalmente considerado como parte do Azerbaijão, mas que é administrado por arménios étnicos desde que a região fronteiriça declarou a independência em 1991. Agora, acusam-se mutuamente de terem iniciado as hostilidades e declararam a lei marcial, mantendo uma linguagem beligerante - ou seja, os dois governos prepararam as populações para uma potencial guerra.


O Ministério da Defesa da Arménia afirma ter havido confrontos durante a noite de domingo e ataques aéreos. Já o Ministério da Defesa do Azerbaijão diz que contra-atacou depois de as forças militares arménias bombardearem a cidade de Terter.

O primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinian, afirmou mesmo que o Azerbaijão "declarou a guerra" ao povo arménio após novos confrontos mortíferos na região separatista de Nagorno-Karabakh, apoiada por Erevan, e pediu ajuda internacional.

"O regime autoritário [azeri] declarou novamente a guerra ao povo arménio", afirmou Pashinian, num discurso transmitido pela televisão estatal arménia.

Além de ter declarado a lei marcial no país, o Azerbaijão fez também saber que o recolher é obrigatório na capital, Baku, e em várias outras cidades importantes, após a escalada de violência entre separatistas de Nagorno-Karabakh, apoiados pela Arménia, e as forças azeris.

Os conflitos estendem-se já para o segundo dia e, esta segunda-feira, o Presidente do Azerbaijão decretou uma mobilização parcial no país. Segundo o decreto presidencial, a ordem entra desde já em vigor. 
Nações e organizações tentam mediar conflito

Nagorno-Karabakh, também conhecida por Artsakh, é uma região separatista do Azerbaijão, habitada principalmente por arménios, e os dois países estão em estado de guerra desde 1991, embora três anos depois tenham assinado um cessar-fogo, que vigora até hoje, apesar de violações por ambas as partes.

Esta região fronteiriça tem uma população de quase 150 mil pessoas cuja maioria, segundo a Arménia, é de origem arménia.

Por um lado, a Arménia reivindica o território, argumentando que tem a maioria étnica e que, por autodeterminação dos povos, tem direito ao controlo total de Nagorno-Karabackh. Por outro lado, o Arzebeijão considera que a região pertence ao território histórico do país.

Sendo território do Império Russo disputado pela Arménia e Azerbaijão durante a guerra civil, após a revolução bolchevique de 1917, Nagorno-Karabakh foi anexada em 1921 por Estaline à República Socialista Soviética do Azerbaijão, tendo obtido, a partir de 1923, um estatuto autónomo.

A verdade é que esta disputa no Sul do Cáucaso atrai preocupações regionais e ocidentais porque é uma área que serve de passagem para oleodutos que transportam petróleo e gás do Mar Cáspio para os mercados internacionais. Além disso, o governo arménio já admitiu, este domingo, a possibilidade de lutar pela independênciade Nagorno-Karabackh.

O Presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev, repondeu entretanto, após a escalada das tensões no enclave separatista arménio de Nagorno-Karabakh, que Baku "não vai entregar as suas terras a ninguém" e garantiu que irá "restaurar a justiça histórica".

"Estamos na nossa terra. Não queremos a dos outros. Mas a nossa não a entregaremos a ninguém"
, disse o Presidente azeri numa intervenção através da Internet no Conselho de Segurança das nações Unidas.

"Nunca permitiremos a criação do assim chamado segundo Estado arménio em território do Azerbaijão. E os êxitos [na esfera militar] são prova disso”, referiu, lembrando que Nagorno-Karabakh é uma “questão histórica" para o país.

"Já o disse muitas vezes e hoje repito-o: devemos fazê-lo de tal maneira para que o povo azeri fique satisfeito. Temos de restabelecer a justiça histórica e temos de o fazer para restaurar a integridade territorial do Azerbaijão", frisou.

Os confrontos que começaram no domingo são já considerados os mais mortíferos desde 2016 e estão a causar preocupação internacional, tendo a União Europeia, o Conselho Europeu, a Rússia, a França e a Alemanha lamentado os ataques e pedido a cessação imediata das hostilidades, assim como o regresso à mesa de negociações.

O Presidente russo, Vladimir Putin, atua como árbitro na região e veio já apelar ao fim dos confrontos.

"Todos os esforços devem ser feitos agora para evitar uma nova escalada do conflito, sendo fundamental a suspensão das ações militares", afirmou Putin, citado pelo Kremlin em comunicado sobre os assuntos discutidos com o primeiro-ministro arménio, no qual se refere que a Rússia expressou "grande preocupação".

Os Estados Unidos manifestaram-se também "alarmados" com as "notícias de ações militares em larga escala ao longo da Linha de Contacto na zona de conflito de Nagorno-Karabakh" e condenaram "nos termos mais veementes esta escalada de violência".

"Instamos as partes a trabalharem com os copresidentes do Grupo de Minsk [Rússia, França e Estados Unidos] e a regressarem a negociações substantivas o mais depressa possível", diz um comunicado da Casa Branca.

Os Estados Unidos, na qualidade de copresidente do Grupo de Minsk da OSCE, "continuam empenhados em ajudar as partes a alcançar uma solução pacífica e sustentável para o conflito", concluiu o texto.

Por seu lado, a Turquia já manifestou "apoio total" ao Azerbaijão na disputa contra a Arménia, disponibilizando quaisquer equipamentos militares que Baku venha a solicitar.

Recorde-se que os combates ocorrem regularmente entre separatistas e azeris, bem como entre Erevan e Baku. Em 2016, os graves confrontos armados quase degeneraram numa guerra em Karabakh e, em julho de 2020, registaram-se igualmente combates entre arménios e azerbaijaneses na sua fronteira.

Apesar de o conflito ter terminado em 1994 e de ter sido sucedido de um cessar-fogo, as tensões na região separatista de Nagorno-Karabakh permaneceram ao longo dos anos, tendo no domingo subido de tom, com as partes a trocarem acusações sobre quem iniciou as hostilidades.
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