Não há mais tempo a perder

Lisboa, 08 Dez (Lusa) - As palavras do primeiro-ministro português, José Sócrates, ao afirmar que não há mais tempo a perder, marcaram a abertura da II Cimeira UE/África, e acabaram por ficar reflectidas nas restantes intervenções da sessão inaugural do encontro.

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As desgraças e os males do continente africano foram por todos reconhecidas, a par das questões mais prementes do momento, como as dos Direitos Humanos, dos conflitos, da boa governação e dos dramas humanitários.

"Não há mais tempo a perder na relação entre os dois continentes. É altura de construirmos soluções. A nova estratégia exige um diálogo político com frontalidade, sem tabus e sem temas proibidos", frisou o também presidente em exercício da União Europeia (UE), que não se escusou em falar abertamente na "universalidade" dos Direitos Humanos.

A questão dos Direitos Humanos seria retomada logo depois pelo presidente egípcio, Hosni Mubarak, anfitrião da primeira cimeira, há sete anos.

"Os Direitos Humanos não se podem separar da luta contra a pobreza e a parceria UE/África vai ajudar a criar novos empregos, novas possibilidades e, ao mesmo tempo, será encorajada a emigração legal", considerou Mubarak.

Mais longe foi o Presidente da Comissão Europeia (CE), José Manuel Durão Barroso, que defendeu ser necessário "aproveitar" a cimeira "para eliminar os velhos estereótipos e avançar na criação de uma verdadeira parceria estratégica", sublinhando, porém, que o encontro não se esgota nas relações entre a Europa e África.

"Esta cimeira não é apenas sobre as relações entre a Europa e África, mas também para se perceber como, em conjunto, podemos nós próprios ter soluções globais para problemas globais", disse, falando dos numerosos desafios que há pela frente e garantindo ainda que a UE continuará a respeitar os compromissos dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e que continuará como principal doador no mundo.

"A globalização tem de dar resultados positivos em termos de crescimento económico, criar mercados competitivos e, assim, uma base para o desenvolvimento sustentável. Não queremos que a globalização tenha a ver com explosões económicas efémeras. Queremos uma globalização sustentável, boa para todos os povos da Europa e África", vincou.

Aludindo às questões do Darfur e do Zimbabué, Durão Barroso foi ainda mais claro: "espero que aqueles que lutaram pela liberdade dos seus povos, possam agora manter a liberdade dos seus povos".

Por seu lado, o seu homólogo da Comissão da União Africana (UA), Alpha Oumar Konaré, também não fugiu aos temas em destaque, mas, tal como Durão Barroso e José Sócrates, pôs o "dedo na ferida" para realçar que chegou a altura propícia para que africanos e europeus "enterrem o passado colonial".

As críticas de Konaré viraram-se também para as Nações Unidas, onde, no seu entender, há uma "falta de democraticidade e de uma verdadeira representatividade" no Conselho de Segurança, razão pela qual se deve apostar numa reforma "profunda" na organização e também no Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional.

Para o presidente da Comissão da UA, construir a unidade africana passa também pela ideia avançada pelo líder líbio, Muammar Kadhafi, de criar os Estados Unidos de África, não se negando, paralelamente, "as heranças coloniais".

Nesse sentido, africanos e europeus devem partilhar os valores de paz, boa governação e da segurança, do respeito pelos Direitos Humanos, lado a lado com "um espírito de humildade, solidariedade e confiança para se chegar a acordos justos", observou.

"Caso contrário, será posto em causa o desenvolvimento", advertiu, garantindo que a UA tudo fará para que África "não volte a ser uma nova coutada".

Breve foi a intervenção do presidente em exercício da UA, John Kufuor, igualmente chefe de Estado do Gana, em que defendeu a necessidade de fomentar uma nova cooperação entre a Europa e África, a todos os níveis".

Usando a máxima "a África precisa da Europa e a Europa de África", Kufuor questionou os presentes sobre o futuro, salientando que o grande tema da cimeira será, afinal, se haverá ou não "mudanças" no relacionamento entre os dois continentes.


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