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"Não nos víamos ainda como independentes" - Óscar Monteiro

"Não nos víamos ainda como independentes" - Óscar Monteiro

Maputo, 03 jun (Lusa) -- A independência de Moçambique, alcançada a 25 de junho de 1975, foi sentida como ainda insuficiente até que o resto da África Austral fosse também libertado, recorda o histórico da Frelimo Óscar Monteiro,

Lusa /

"Não nos víamos como independentes, queríamos ser plenamente independentes ", disse em entrevista à Lusa o jurista, antigo secretário adjunto para as relações externas da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) durante o período de libertação e que depois desempenhou vários cargos como ministro, na Presidência, Informação, Administração Estatal e Interior.

"Foi uma das primeiras coisas que se sentiu, fazia parte da nossa forma de ser", lembra Óscar Monteiro, ressaltando que a sua observação diz respeito não só ao "apartheid" na África do Sul mas também ao colonialismo, que "estava a terminar mas procurava ainda sobreviver".

O objetivo, afirmou, "foi alcançado, apesar das agruras e grandes dificuldades, com intervenções diretas e indiretas" e que determinou que "a Frelimo fosse um dos movimentos mais brilhantes, e reconhecido como tal, pela seriedade, pelo comportamento, pela ética e por ter integrado muita gente e seus ensinamentos".

Um dos fatores que diferencia a Frelimo, segundo o veterano do partido, foi justamente a inclusão, "num movimento sem experiência política, porque o fascismo e o colonialismo não deixavam" e também com pouca informação disponível, o que inspirou o título do seu livro, lançado em 2012, "De todos se faz um país".

O movimento de libertação de Moçambique, sublinhou, "não foi feito por uma elite mais refinada, mais politizada", embora também existissem "as vanguardas, os dirigentes e heróis", mas sobretudo "foi um grande movimento de pessoas".

Óscar Monteiro recorda que, quando foi nomeado representante da Frelimo na Argélia, em 1967, recebeu uma mensagem "estranha e aparentemente contraditória" para seguir um treino militar numa das bases que o partido mantinha no sul da Tanzânia.

"Depois compreendi que o treino era um mergulho no interior da sociedade moçambicana, com pessoas de todos os lugares, em várias línguas", referiu, comentando que havia também muitas reuniões, "às vezes até demais", e uma delas durou 24 dias, mas isso "permitia que os saberes de muitos fossem incorporados no pensamento geral".

Em Moçambique, destacou, fez-se o contrário do que pensava o revolucionário argentino Che Guevara de que é o foco que mobiliza as pessoas.

"Foi aliás um ponto de divergência com ele", segundo o ex-dirigente da Frelimo, frisando que o seu partido teve outra posição -- "ir lá falar com as pessoas, compreender a perceção delas e é pela discussão que se avança" -- e que essa foi a forma de iniciar a luta armada quando não se sabia bem como fazê-la.

"Não encontro outra explicação para a Frelimo ter a admiração que suscitou no mundo", afirmou Óscar Monteiro, dando também o exemplo da sua própria história, um estudante de origem goesa, "uma pessoa aceite como as outras".

Esta noção assumida de "guerra popular" trouxe também um lado penoso, em que "era pedido às pessoas para darem os seus filhos para lutar e enfrentarem bombardeamentos".

"As populações falavam abertamente e muitas vezes invetivavam-nos -- `vocês são uns miúdos irresponsáveis`", lembrou Óscar Monteiro, apontando, por outro lado, que isso conduziu à consciência de que "a independência devia beneficiar todos e particularmente a população pobre".

Na independência havia 11 licenciados em Direito, dos quais três eram ministros, mas, quarenta anos depois, Monteiro questiona os ganhos na educação, sustentando que manter grandes quantidades de alunos nas escolas é insuficiente sem se saber o que fazer com eles.

"Os sucessos também têm aspetos negativos", declarou, mas um deles, a unidade nacional, tornou-se" estável e real", embora "o país ainda se associe muito a famílias políticas".

"Há uma dimensão pessoal e humana que não pode estar naquele Acordo [Geral de Paz] em 1992, tem de estar na vontade das pessoas em reconhecer o outro como um compatriota e não como um inimigo", advogou.

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