"Não reinarei sobre a Hungria". Péter Magyar tomou posse como primeiro-ministro

"Não reinarei sobre a Hungria". Péter Magyar tomou posse como primeiro-ministro

Péter Magyar já tomou posse como primeiro-ministro da Hungria e prestou juramento perante o Parlamento, em Budapeste. No exterior do edifício, milhares de pessoas participaram nas celebrações, que marcam o início do novo Governo e o fim de um capítulo de 16 anos com Viktor Orbán no poder.

Inês Moreira Santos - RTP /
Leonhard Foeger - Reuters

Quase um mês ter alcançado uma vitória esmagadora nas eleições, Péter Magyar tomou posse como primeiro-ministro da Hungria, prometendo “servir” o país e não “governar” como um monarca. O partido Tisza detém 141 das 199 cadeiras no Parlamento húngaro, o que significa um aumento considerável relativamente às eleições anteriores, em que não conseguiu eleger nenhum deputado. 

"Não reinarei sobre a Hungria, mas servirei o meu país. Servi-lo-ei enquanto os meus serviços forem úteis e a nação precisar deles", declarou no primeiro discurso perante o parlamento, sublinhando que "milhões de pessoas escolheram a mudança" após 16 anos com Viktor Orbán como primeiro-ministro.


Na sessão inaugural do novo parlamento, o conservador pró-europeu foi eleito primeiro-ministro, com 140 votos a favor, 54 contra e uma abstenção. Minutos após tomar posse, Magyar afirmou que os húngaros deram ao seu partido um mandato para iniciar um “novo capítulo” na história do país: “Um mandato não só para mudar o governo, mas também para mudar o sistema. Para recomeçar.”

"Peço a todos aqui, no interior do parlamento, que escutem e ouçam que os húngaros expressaram que querem mudanças, não apenas uma mudança de governo, mas de sistema". 

No discurso que se prolongou bem mais do que uma hora, Magyar voltou a insistir na saída de responsáveis do Estado nomeados pelo executivo de Viktor Orbán e pelo partido do antigo primeiro-ministro, Fidesz, desde logo o presidente húngaro, Tamás Sulyok, segundo o meio online telex.hu.

O partido Fidesz de Orbán foi derrotado nas eleições de 12 de abril, passando de 135 para 52 assentos parlamentares. O primeiro-ministro cessante e outras figuras importantes do partido decidiram não assumir os seus lugares no parlamento como deputados.
"Responsáveis serão responsabilizados pelas suas ações"
O novo líder do Executivo húngaro apelou “às figuras públicas e aos líderes institucionais que se tornaram bodes expiatórios políticos do sistema passado – ou que sempre o foram – para que assumam a sua própria responsabilidade e se afastem, demitam-se hoje ou, o mais tardar, até 31 de maio”

E dirigindo-se ao presidente, acusou-o de não conseguir representar “a união da nação” e defendeu: “Tamás Sulyok deve iniciar [o processo] imediatamente”.

"Está na hora de sair enquanto ainda pode”, declarou, olhando diretamente para Sulyok.

Com o apoio manifestado pelos aplausos de uma maioria parlamentar, Magyar insistiu que os “responsáveis serão responsabilizados pelas suas ações". 

“Herdamos uma Hungria que é um dos países mais corruptos da UE, onde oito triliões de florins de fundos da UE foram perdidos devido à corrupção e ao desmantelamento deliberado do Estado de Direito”, comentou, referindo-se aos 17 mil milhões de euros retidos por Bruxelas devido a preocupações com violações do Estado de Direito e corrupção sistémica na Hungria, considerado nos últimos quatro anos como o mais corrupto do bloco europeu, segundo a Transparência Internacional.

“Quem acredita que lealdade partidária, fidelidade ou outros fatores os isentam de responsabilidade está enganado”, prosseguiu Magyar.

O primeiro-ministro empossado comentou ainda a ausência do antecessor, Viktor Orbán, na cerimónia deste sábado, assim como de Ferenc Gyurcsány, primeiro-ministro entre 2004 e 2009. 

Ambos, sublinhou Magyar, “fracassaram politica, humana e moralmente” e “viraram as costas, renunciaram e estão a lavar as mãos”. 

Nesse sentido, novo primeiro-ministro defendeu que é necessário “um novo começo” e que o país precisa de ser “reconstruído em termos de Estado, confiança, unidade nacional e esperança”. Deixou, contudo, uma mensagem aos apoiantes do partido de Orbán, o Fidesz: “Começaremos a trabalhar juntos, com respeito mútuo”.

Uma das primeiras medidas deste Governo, segundo anunciou Magyar, será a criação do Gabinete para a Recuperação e Defesa do Património Nacional, afirmando que "os húngaros têm o direito de saber como o património público se tornou riqueza privada”. Estrutura que ficará responsável por recuperar fundos alegadamente desviados para oligarcas próximos de Orbán e do Fidesz.

Magyar prometeu ainda construir uma Hungria mais inclusiva, mais livre, humana e esperançosa. 

"O que nos une será mais forte do que o que nos divide", disse. "A Hungria será o lar de todos os húngaros, e todos poderão sentir que têm um lugar na nação húngara. Famílias, amigos e comunidades poderão voltar a comunicar-se"

Sobre a maioria que conquistou nas eleições, defendeu: “O poder deve sempre operar dentro de limites”.

"Iremos realizar uma revisão abrangente do sistema constitucional da Hungria, fortalecer o sistema de freios e contrapesos e restaurar as instituições independentes", anunciou. “Cabe-nos decidir como viveremos com a liberdade que acabamos de receber: a confiança deve transformar-se em leis, a autoridade em serviço e a vitória numa vida quotidiana melhor e mais humana. Trabalharemos nisso com humildade e serviço”.

O discurso foi aplaudido de pé pelos deputados do Tisza, enquanto no exterior, milhares de apoiantes seguiam o discurso através de ecrãs gigantes e agitavam bandeiras da Hungria.
Bandeira da UE regressa ao edifício do Parlamento após 12 anos 
Coincidentemente, a tomada de posse aconteceu no Dia da Europa e Magyar prometeu reconstruir a relação há muito tensa da Hungria com a União Europeia e trabalhar com o bloco para desbloquear os milhões em fundos europeus congelados. 

Os primeiros sinais dessa mudança foram simbolicamente inseridos nos planos para a cerimónia de tomada posse deste sábado, incluindo o regresso da bandeira da UE. 

A bandeira europeia voltou a ser hasteada no edifício do Parlamento húngaro em Budapeste, após uma ausência de 12 anos durante a governação do ultranacionalista Viktor Orbán, na primeira decisão da nova presidente deste órgão, Agnes Forsthoffer.

"Ordeno que, a partir de hoje, após 12 anos, a bandeira da União Europeia seja novamente hasteada no edifício do Parlamento Húngaro", disse Forsthoffer, eleita por 193 votos em 199, na sessão de investidura dos deputados eleitos em 12 de abril.

A medida, que foi a “primeira decisão” da presidente do parlamento, deve ser "o primeiro passo simbólico" de um regresso à Europa para o país da Europa Central, afirmou. 

“Seremos novamente membros respeitados da União Europeia”, salientou, segundo o meio independente húngaro Telex.

O Telex relatou que os deputados do Fidesz (em coligação com os democratas-cristãos do KNDP) e da extrema-direita não aplaudiram a decisão sobre a bandeira da União Europeia, que tinha sido prometida por Magyar.

Noutro gesto simbólico, a Ode à Alegria, o hino da União Europeia, foi tocada no momento da formação do Governo liderado por Péter Magyar, a par do hino húngaro.

C/agências
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