"Não tenham medo da Covid-19". O filme do regresso de Trump à Casa Branca

por Joana Raposo Santos - RTP
As palavras de Donald Trump preocuparam especialistas em saúde pública. Erin Scott - Reuters

O Presidente dos Estados Unidos, ainda infetado pelo novo coronavírus, regressou na noite de segunda-feira à Sala Oval, depois de três dias hospitalizado no Centro Médico Walter Reed. Num discurso triunfante e sem máscara à varanda da Casa Branca, Donald Trump explicou que tinha de regressar ao trabalho apesar de todos os riscos. "Não tenham medo da Covid-19", clamou, momentos antes, no Twitter.

Apenas algumas horas depois de a sua secretária de imprensa e dois outros funcionários da Casa Branca terem testado positivo para o novo coronavírus, e numa altura em que os Estados Unidos ultrapassam os 7,4 milhões de casos confirmados, Donald Trump voltou a contrariar os conselhos de especialistas, retirando a máscara do rosto para falar aos americanos.

“Vamos regressar. Vamos regressar ao trabalho. Vamos estar na linha da frente. Como vosso líder, tinha de o fazer. Sabia que há riscos, mas tinha de o fazer”, declarou o Presidente, à varanda da Casa Branca.

“Eu fiquei à frente. Liderei. Ninguém que seja um líder deixaria de fazer o que eu fiz. Sei que há um risco, há perigo, mas tudo bem. Agora estou melhor e talvez esteja imune, não sei. Mas não deixem que [o novo coronavírus] domine as vossas vidas. Saiam à rua, tenham cuidado”, aconselhou.

Pouco antes da chegada à Casa Branca, o Presidente tinha já anunciado no Twitter que iria abandonar o hospital Walter Reed, onde estava desde sexta-feira, e lançou um conselho à população: “Não tenham medo da Covid. Não deixem que domine as vossas vidas”, escreveu.

“Desenvolvemos, sob a Administração Trump, alguns muito bons medicamentos e conhecimentos. Sinto-me melhor do que há 20 anos!”, concluiu o Presidente.


As palavras de Donald Trump preocuparam especialistas em saúde pública. “É inexplicável que o Presidente dos Estados Unidos, que está ativamente a espalhar o vírus em milhões de partículas, tenha entrado naquele edifício acompanhado de um enorme número de funcionários sem máscara”, lamentou à CNN Jonathan Reiner, professor de medicina na Universidade George Washington.

“É realmente difícil compreender como é que ninguém lhe disse para não o fazer. Parece não existir mais ninguém responsável por ele do que o próprio Presidente, do que o próprio paciente”, afirmou.

Ao New York Times, o especialista em doenças infeciosas William Schaffner considerou as palavras do Presidente “perigosas” pois poderão encorajar os seus apoiantes a ignorarem as recomendações básicas de segurança.

“Vão levar a comportamentos mais descontraídos, o que originará maior transmissão do vírus, o que levará a mais casos de doença e de morte”, alertou.

A mensagem de Trump aos americanos criou também revolta entre familiares de vítimas mortais da Covid-19. Fiana Tulip, cuja mãe faleceu devido ao vírus, disse ao New York Times que as palavras do Presidente lhe chegaram como “uma bofetada” e a relembraram de que “o Presidente não está à altura do seu cargo e não se preocupa com a vida humana”.

“A minha mãe, uma terapeuta respiratória, não pôde ser testada no hospital onde trabalhava e teve de procurar durante dias um sítio para ser testada enquanto sofria os efeitos da Covid-19”, contou Tulip, lamentando que Trump tenha dito aos americanos que nada temam quanto a esta doença fatal. O novo coronavírus tem morto uma média de 700 pessoas por dia nos Estados Unidos nas últimas semanas.

A equipa médica de Donald Trump anunciou na sexta-feira que o Presidente estava infetado com o novo coronavírus. Ao final do mesmo dia, o líder foi transportado para o hospital militar Walter Reed por alegado “excesso de zelo”.

Apesar de poder continuar a ser tratado na Casa Branca, onde tem acompanhamento médico 24 horas por dia, o médico de Trump admitiu que o Presidente “pode não estar ainda totalmente fora de risco”, acrescentando que será necessária mais uma semana até que os especialistas se possam sentir confiantes de que não corre perigo.

O contágio aconteceu após meses de desrespeito pelas orientações dos especialistas em saúde pública. Donald Trump recusou-se, a maior parte do tempo durante a pandemia, a usar máscara e a manter o distanciamento de segurança.

Também contra todas as recomendações, decidiu participar em comícios por vários Estados, nos quais a maioria dos participantes nas plateias também não usavam equipamentos de proteção nem mantinham a distância de dois metros aconselhada.

Neste momento, os Estados Unidos são o país mais afetado pelo novo coronavírus. Contam-se já mais de 7,4 milhões de casos confirmados desde o início da pandemia - nenhum dos quais teve acesso aos tratamentos experimentais a que Trump foi submetido -, dos quais 210 mil são vítimas mortais. Registam-se, até agora, 3,2 milhões de casos recuperados nos EUA.
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